why must itself up every of a park
anus stick some quote statue unquote to
prove that a hero equals any jerk
who was afraid to dare to answer "no"?
quote citizens unquote might otherwise
forget(to err is human;to forgive
divine)that if the quote state unquote says
"kill" killing is an act of christian love.
"Nothing" in 1944 AD
"can stand against the argument of mil
itary necessity"(generalissimo e)
and echo answers "there is no appeal
from reason"(freud)--you pays your money and
you doesn't take your choice. Ain't freedom grand
E.E. Cummings
segunda-feira, julho 11, 2011
quinta-feira, junho 30, 2011
Canal Q, ou "a necessidade de irmos contra a corrente só porque sim"
Este texto já andava para ser escrito há algum tempo, mas confesso que não tenho dedicado as minhas férias à escrita, lamentavelmente, e muito menos à escrita no que aos blogs diz respeito, particularmente este blog, em concreto. Mas vai ser agora.
Existe um canal, exclusivo do meo, serviço de televisão por cabo que subscrevo, que dá pelo nome minimalista de "Q". É um canal das Produções Fictícias (PF) e, como tal, apresenta-se como um canal de humor e de estilo de vida "alternativo", ou, pelo menos, aquilo que hoje em dia vai passando como alternativo. Não é que não ache alguma piada aos formatos das PF, não é que não aprecie o tipo de humor tantas vezes deadpan e nonsense pelo qual eles se parecem reger, ou, vá, no mínimo, pela ironia e sarcasmo latentes em quase tudo o que fazem. Mas, como é sabido, tudo o que é demais (e de mais), enjoa. E as PF andam pelos meios televisivos como se fossem a única companhia a criar humor, neste momento, em Portugal. Quase tudo o que se vê é PF. Os tão acarinhados Gato Fedorento (mesmo que eu não entenda o porquê de tanto entusiasmo em torno desses cavalheiros, nunca me agradaram por aí além) são PF. O grupinho de Bruno Nogueira e João Quadros e etc. e tal é PF. Os guiões do Herman José são das PF (talvez daí a genuína perda de piada do senhor, de uns anos a esta parte? Só um palpite, digo eu, caro Herman). As PF estão, para o humor, como o Acontece estava, para a cultura em TV, há uns anos atrás. E, se alguém sequer se lembra, o fim do programa deu-se, entre outras razões, porque monopolizava tudo o que era cultura, não dando espaços e oportunidades a quaisquer outras plataformas. Claro que se poderá (e deverá) argumentar que, depois do Acontece, as coisas não melhoraram muito. É verdade. Diria mesmo que não melhoraram nada. Agora, bem vistas as coisas, nem sequer há um programa de cultura, per se, na televisão. Mas, pelo menos, sacudiu-se aquele mofo. E, sim, é provável que não haja mais ninguém disponível para fazer humor em TV e rádio e na internet, como as PF se disponibilizam e prontificam a fazer. Poder-me-ão, ainda, dizer que os tipos do GANA/CENA/Pomada Indiana/etc., se venderam às PF (João Moreira surge, diversas vezes, vestido de galináceo, na programação mais recente do Canal Q, por exemplo), e que eles eram a única alternativa verdadeira a esse gigante do humor e dos guiões que se querem humorísticos para tudo relacionado com os media. Mas, sejamos francos, a verdade é que já não há pachorra. Não há pachorra para o clã Markl, para os Salvadores Martinhas, para os pseudo-intelectuais com barba rala de quatro dias, blazers justinhos, quase cintados, com t-shirts de filmes do Tarantino ou de jogos da NES ou da Atari por baixo, sempre com um ar oh-so bichona/boiola/metrossexual-porque-está-na-moda, a repetirem as mesmas piadas vezes sem conta, a fazerem aquele tom de fim de frase de quem está envergonhado ou de quem se apercebe, conscientemente, de qualquer coisa inconsciente, como "ah, ok, se calhar isto não era para dizer", enquanto fogem com os olhos da câmara e apertam os lábios um contra o outro. E, no fundo, o pior é que são todos uma cambada de burros laureados pelos jovenzinhos deste país, que é quem consome aquilo tudo, sem reclamar, que nem se apercebem que os seus ídolos são meras cópias uns dos outros, é tudo gente a tentar ser o outro, é tudo Fernandos Alvins a tentarem ser Ruis Unas, tudo a tentar ser o Manel João Vieira e o Manel João Vieira, enfim, a ser já só uma sombra do que foi, a tentar ser sério quando brinca, a tentar brincar quando está sério, culto, a fingir que não é, e a inspirar toda uma geração de meninos com pretensões de humoristas a serem cultos quando, na verdade, não passam de uma cambada de burros que mal falar sabem.
Mas, enfim, este nem era o teor do comentário. Chamemos-lhe, apenas, uma introdução. O que me levou a ponderar escrever isto foi o programa aberrante (não tenho outra adjectivação possível), que dá pelo nome de Os Culturistas, do passado dia 13 de Junho, aniversário de Fernando Pessoa, que passou no dito Canal Q, programa da autoria de Nuno Artur Silva, director do canal e cara de uma série de programas desinteressantes, no mesmo, apresentado por ele, por Pedro Mexia, e um outro Pedro Vieira, senhor todo ele muito pseudo-culto e ainda mais pseudo-tudo-e-mais-alguma-coisa, cavalheiro que apresenta programas de literatura e cultura no mesmo canal. O convidado do programa em questão foi o poeta, tradutor, teórico, estudioso e demais classificações literário-profissionais-académicas Vasco Graça Moura. Até aqui, enfim, nada de mais, não fora o facto de desgostar dos senhores apresentadores, por anteriores passagens de zapping pelo canal 15 do meo (posição do Q na grelha), e de não achar que a poesia, quer do excelentíssimo Vasco Graça Moura, quer do ilustre Pedro Mexia, vá particularmente de encontro à minha sensibilidade estética. O problema surge no tema do programa. Ora, sobre o que escolheram falar tais digníssimos pensadores da contemporaneidade? Sobre Fernando Pessoa, nem mais. Mas, reconheçamos, sobre Fernando Pessoa sob todo um novo prisma. Talvez com dor-de-cotovelo, talvez só porque, sei lá, há para aí uns senhores professores de ensino básico e secundário e, até, quem diria!, uns senhores professores universitários e uns jovens, uns adultos, uns idosos nem sequer ligados ao estudo científico e "laboratorial" da literatura e da poesia que gostam de Fernando Pessoa, os caríssimos decidiram realizar um programa, no aniversário de um dos nossos maiores e mais geniais poetas, unica e exclusivamente, para dizer mal. Apesar de tudo, Vasco Graça Moura, espicaçado, que foi, ainda foi o único a manter o decoro, dizendo que a sua opinião sobre Pessoa era meramente individual e idiossincrática, que o poeta tem o seu valor e que o seu papel na literatura mundial é incontornável. Mas, tal era o clima de maledicência naquele estúdio, que, em pouco tempo, já até Graça Moura tinha olvidado estes argumentos, e ingressado no dizer mal só porque sim.
É verdade que o Pessoa está na moda. É verdade que, no estrangeiro, particularmente em países anglófonos, o Pessoa é dos nossos autores mais lidos e traduzidos. É verdade que muitos jovens se interessam por Pessoa por causa da sua suposta esquizofrenia, da sua loucura, dos temas de cansaço e melancolia e solidão e incapacidade e diletância física, patentes nos seus poemas mais conhecidos. Mas é também verdade que Fernando Pessoa tem uma qualidade inegável. Pode não agradar a todos, mas agrada a grande parte, pela universalidade das suas mensagens, pela intemporalidade dos seus temas. Pessoa nunca será apenas um modernista. Não sei se era louco, ou não, e, com toda a franqueza, enquanto estudioso e trabalhador da literatura, isso não me interessa. Interessa-me o seu legado, interessa-me quanto daquilo que leio, de Pessoa, me diz coisas íntimas, ao coração e à alma. Pessoa fazia da palavra e da língua o seu laboratório, e fazia-o como tão poucos, ao longo da história da humanidade, o souberam fazer. E é ridículo que uns senhores muito cultos se juntem apenas para dizer mal. Para reduzir Fernando Pessoa a umas situações ridículas, a um desespero infantil, do qual "qualquer homem adulto saberia sair". Mais ridículo, ainda, quando o programa se auto-intitula "Culturistas". Primeiro, porque, se, por "culturistas" querem fazer um jogo de palavras, rejeitam toda a cultura, toda a literatura e teoria literária, ao rejeitar assim Fernando Pessoa. Depois, porque, se, de facto, são culturistas, no sentido mais... anaeróbico do termo, deviam-se restringir ao que os culturistas sabem fazer. Que é musculação e injecções de esteróides. De literatura é que, lamento, não percebem um chavelho. Ainda para mais, quando o prezado indivíduo que apresenta as outras rubricas de "literatura" do canal alega, neste programa, que nem sequer gosta muito de ler poesia (dizendo, inclusivamente, que não tem, por hábito, ler poesia). Meu amigo, se não gostas de ler poesia, não percebo mesmo porque raio é que estás a apresentar programas de literatura. Poesia e literatura são indissociáveis. Quem gosta de literatura a sério também gosta de poesia e de teatro e de prosa. É assim que as coisas são. Ou, vá lá, podia não gostar muito de poesia. Nada obsta. Mas, por amor da santa, criar, quanto mais não fosse, o hábito de a ler, se se vai ser apresentador pseudo-literato num programa de poesia de um canal pseudo-culto para jovenzinhos em fase "do contra" das suas existências rebeldes.
Queria apenas dizer isto, no final de um texto tão mal estruturado, no qual não disse metade das coisas que tinha em mente: não digam assim mal do Pessoa num programa que tantos miúdos vêem, pode ser? O Pessoa pode ser o que seja, eu próprio já tive a minha fase mais obsessiva, como toda a gente, acho eu, que me passou, e, neste momento, acho que ainda vou gostando apenas de Álvaro de Campos, uma ou outra coisa do Alberto Caeiro, muito pouca coisa do ortónimo, quase nada do Ricardo Reis. Mas sempre muito Bernardo Soares. Sempre todo o Bernardo Soares (a discussão do semi-heterónimo fica para outro post, por agora, fiquemo-nos por isto). Pessoa passou-me um bocado, como passa a tanta gente. Mas fica sempre qualquer coisa, fica sempre muito, porque é isso que acontece com os génios. E não é porque ele está na moda e vai estando e ficando na moda que têm de ser do contra. Sejam do contra em relação ao que está na moda sem dever estar, não sejam do contra só porque sim, irracionalmente. Porque, neste país à beira-mar plantado (e de forma gradualmente assustadora só e apenas plantado, aqui, a vegetar, à espera de milagres), cada vez se lê menos, nem só poesia, mas sobretudo. Portanto, se os miúdos e os jovens agarram Pessoa e gostam, se se revêem naquilo que ele fez, se se identificam, deixem-nos ler Pessoa, deixem-nos amar a poesia, não façam estas coisas, a crucificar um poeta tão bom e tão genial, que é nosso, para os miúdos que assistem ao vosso canal, para o caso de gostarem, deixarem a poesia de lado, influenciados pelo que lhes dizem.
E, só como apontamento, mil vezes Fernando Pessoa, ortónimo, heterónimos, semi-heterónimo, do que Pedro Mexia e/ou Vasco Graça Moura. Só, assim, vá, como achegazinha. Mil vezes o Pessoa na moda, do que o humor e a alegada cultura "alternativa" de rebanhos que se vai fazendo no Canal Q e nos media, do contra só porque sim.
Existe um canal, exclusivo do meo, serviço de televisão por cabo que subscrevo, que dá pelo nome minimalista de "Q". É um canal das Produções Fictícias (PF) e, como tal, apresenta-se como um canal de humor e de estilo de vida "alternativo", ou, pelo menos, aquilo que hoje em dia vai passando como alternativo. Não é que não ache alguma piada aos formatos das PF, não é que não aprecie o tipo de humor tantas vezes deadpan e nonsense pelo qual eles se parecem reger, ou, vá, no mínimo, pela ironia e sarcasmo latentes em quase tudo o que fazem. Mas, como é sabido, tudo o que é demais (e de mais), enjoa. E as PF andam pelos meios televisivos como se fossem a única companhia a criar humor, neste momento, em Portugal. Quase tudo o que se vê é PF. Os tão acarinhados Gato Fedorento (mesmo que eu não entenda o porquê de tanto entusiasmo em torno desses cavalheiros, nunca me agradaram por aí além) são PF. O grupinho de Bruno Nogueira e João Quadros e etc. e tal é PF. Os guiões do Herman José são das PF (talvez daí a genuína perda de piada do senhor, de uns anos a esta parte? Só um palpite, digo eu, caro Herman). As PF estão, para o humor, como o Acontece estava, para a cultura em TV, há uns anos atrás. E, se alguém sequer se lembra, o fim do programa deu-se, entre outras razões, porque monopolizava tudo o que era cultura, não dando espaços e oportunidades a quaisquer outras plataformas. Claro que se poderá (e deverá) argumentar que, depois do Acontece, as coisas não melhoraram muito. É verdade. Diria mesmo que não melhoraram nada. Agora, bem vistas as coisas, nem sequer há um programa de cultura, per se, na televisão. Mas, pelo menos, sacudiu-se aquele mofo. E, sim, é provável que não haja mais ninguém disponível para fazer humor em TV e rádio e na internet, como as PF se disponibilizam e prontificam a fazer. Poder-me-ão, ainda, dizer que os tipos do GANA/CENA/Pomada Indiana/etc., se venderam às PF (João Moreira surge, diversas vezes, vestido de galináceo, na programação mais recente do Canal Q, por exemplo), e que eles eram a única alternativa verdadeira a esse gigante do humor e dos guiões que se querem humorísticos para tudo relacionado com os media. Mas, sejamos francos, a verdade é que já não há pachorra. Não há pachorra para o clã Markl, para os Salvadores Martinhas, para os pseudo-intelectuais com barba rala de quatro dias, blazers justinhos, quase cintados, com t-shirts de filmes do Tarantino ou de jogos da NES ou da Atari por baixo, sempre com um ar oh-so bichona/boiola/metrossexual-porque-está-na-moda, a repetirem as mesmas piadas vezes sem conta, a fazerem aquele tom de fim de frase de quem está envergonhado ou de quem se apercebe, conscientemente, de qualquer coisa inconsciente, como "ah, ok, se calhar isto não era para dizer", enquanto fogem com os olhos da câmara e apertam os lábios um contra o outro. E, no fundo, o pior é que são todos uma cambada de burros laureados pelos jovenzinhos deste país, que é quem consome aquilo tudo, sem reclamar, que nem se apercebem que os seus ídolos são meras cópias uns dos outros, é tudo gente a tentar ser o outro, é tudo Fernandos Alvins a tentarem ser Ruis Unas, tudo a tentar ser o Manel João Vieira e o Manel João Vieira, enfim, a ser já só uma sombra do que foi, a tentar ser sério quando brinca, a tentar brincar quando está sério, culto, a fingir que não é, e a inspirar toda uma geração de meninos com pretensões de humoristas a serem cultos quando, na verdade, não passam de uma cambada de burros que mal falar sabem.
Mas, enfim, este nem era o teor do comentário. Chamemos-lhe, apenas, uma introdução. O que me levou a ponderar escrever isto foi o programa aberrante (não tenho outra adjectivação possível), que dá pelo nome de Os Culturistas, do passado dia 13 de Junho, aniversário de Fernando Pessoa, que passou no dito Canal Q, programa da autoria de Nuno Artur Silva, director do canal e cara de uma série de programas desinteressantes, no mesmo, apresentado por ele, por Pedro Mexia, e um outro Pedro Vieira, senhor todo ele muito pseudo-culto e ainda mais pseudo-tudo-e-mais-alguma-coisa, cavalheiro que apresenta programas de literatura e cultura no mesmo canal. O convidado do programa em questão foi o poeta, tradutor, teórico, estudioso e demais classificações literário-profissionais-académicas Vasco Graça Moura. Até aqui, enfim, nada de mais, não fora o facto de desgostar dos senhores apresentadores, por anteriores passagens de zapping pelo canal 15 do meo (posição do Q na grelha), e de não achar que a poesia, quer do excelentíssimo Vasco Graça Moura, quer do ilustre Pedro Mexia, vá particularmente de encontro à minha sensibilidade estética. O problema surge no tema do programa. Ora, sobre o que escolheram falar tais digníssimos pensadores da contemporaneidade? Sobre Fernando Pessoa, nem mais. Mas, reconheçamos, sobre Fernando Pessoa sob todo um novo prisma. Talvez com dor-de-cotovelo, talvez só porque, sei lá, há para aí uns senhores professores de ensino básico e secundário e, até, quem diria!, uns senhores professores universitários e uns jovens, uns adultos, uns idosos nem sequer ligados ao estudo científico e "laboratorial" da literatura e da poesia que gostam de Fernando Pessoa, os caríssimos decidiram realizar um programa, no aniversário de um dos nossos maiores e mais geniais poetas, unica e exclusivamente, para dizer mal. Apesar de tudo, Vasco Graça Moura, espicaçado, que foi, ainda foi o único a manter o decoro, dizendo que a sua opinião sobre Pessoa era meramente individual e idiossincrática, que o poeta tem o seu valor e que o seu papel na literatura mundial é incontornável. Mas, tal era o clima de maledicência naquele estúdio, que, em pouco tempo, já até Graça Moura tinha olvidado estes argumentos, e ingressado no dizer mal só porque sim.
É verdade que o Pessoa está na moda. É verdade que, no estrangeiro, particularmente em países anglófonos, o Pessoa é dos nossos autores mais lidos e traduzidos. É verdade que muitos jovens se interessam por Pessoa por causa da sua suposta esquizofrenia, da sua loucura, dos temas de cansaço e melancolia e solidão e incapacidade e diletância física, patentes nos seus poemas mais conhecidos. Mas é também verdade que Fernando Pessoa tem uma qualidade inegável. Pode não agradar a todos, mas agrada a grande parte, pela universalidade das suas mensagens, pela intemporalidade dos seus temas. Pessoa nunca será apenas um modernista. Não sei se era louco, ou não, e, com toda a franqueza, enquanto estudioso e trabalhador da literatura, isso não me interessa. Interessa-me o seu legado, interessa-me quanto daquilo que leio, de Pessoa, me diz coisas íntimas, ao coração e à alma. Pessoa fazia da palavra e da língua o seu laboratório, e fazia-o como tão poucos, ao longo da história da humanidade, o souberam fazer. E é ridículo que uns senhores muito cultos se juntem apenas para dizer mal. Para reduzir Fernando Pessoa a umas situações ridículas, a um desespero infantil, do qual "qualquer homem adulto saberia sair". Mais ridículo, ainda, quando o programa se auto-intitula "Culturistas". Primeiro, porque, se, por "culturistas" querem fazer um jogo de palavras, rejeitam toda a cultura, toda a literatura e teoria literária, ao rejeitar assim Fernando Pessoa. Depois, porque, se, de facto, são culturistas, no sentido mais... anaeróbico do termo, deviam-se restringir ao que os culturistas sabem fazer. Que é musculação e injecções de esteróides. De literatura é que, lamento, não percebem um chavelho. Ainda para mais, quando o prezado indivíduo que apresenta as outras rubricas de "literatura" do canal alega, neste programa, que nem sequer gosta muito de ler poesia (dizendo, inclusivamente, que não tem, por hábito, ler poesia). Meu amigo, se não gostas de ler poesia, não percebo mesmo porque raio é que estás a apresentar programas de literatura. Poesia e literatura são indissociáveis. Quem gosta de literatura a sério também gosta de poesia e de teatro e de prosa. É assim que as coisas são. Ou, vá lá, podia não gostar muito de poesia. Nada obsta. Mas, por amor da santa, criar, quanto mais não fosse, o hábito de a ler, se se vai ser apresentador pseudo-literato num programa de poesia de um canal pseudo-culto para jovenzinhos em fase "do contra" das suas existências rebeldes.
Queria apenas dizer isto, no final de um texto tão mal estruturado, no qual não disse metade das coisas que tinha em mente: não digam assim mal do Pessoa num programa que tantos miúdos vêem, pode ser? O Pessoa pode ser o que seja, eu próprio já tive a minha fase mais obsessiva, como toda a gente, acho eu, que me passou, e, neste momento, acho que ainda vou gostando apenas de Álvaro de Campos, uma ou outra coisa do Alberto Caeiro, muito pouca coisa do ortónimo, quase nada do Ricardo Reis. Mas sempre muito Bernardo Soares. Sempre todo o Bernardo Soares (a discussão do semi-heterónimo fica para outro post, por agora, fiquemo-nos por isto). Pessoa passou-me um bocado, como passa a tanta gente. Mas fica sempre qualquer coisa, fica sempre muito, porque é isso que acontece com os génios. E não é porque ele está na moda e vai estando e ficando na moda que têm de ser do contra. Sejam do contra em relação ao que está na moda sem dever estar, não sejam do contra só porque sim, irracionalmente. Porque, neste país à beira-mar plantado (e de forma gradualmente assustadora só e apenas plantado, aqui, a vegetar, à espera de milagres), cada vez se lê menos, nem só poesia, mas sobretudo. Portanto, se os miúdos e os jovens agarram Pessoa e gostam, se se revêem naquilo que ele fez, se se identificam, deixem-nos ler Pessoa, deixem-nos amar a poesia, não façam estas coisas, a crucificar um poeta tão bom e tão genial, que é nosso, para os miúdos que assistem ao vosso canal, para o caso de gostarem, deixarem a poesia de lado, influenciados pelo que lhes dizem.
E, só como apontamento, mil vezes Fernando Pessoa, ortónimo, heterónimos, semi-heterónimo, do que Pedro Mexia e/ou Vasco Graça Moura. Só, assim, vá, como achegazinha. Mil vezes o Pessoa na moda, do que o humor e a alegada cultura "alternativa" de rebanhos que se vai fazendo no Canal Q e nos media, do contra só porque sim.
P.S.: no dia do aniversário da morte do Saramago, esse cavalheiro que escrevia mal que se fartava, mas que é mitificado só por receber uma porcaria de um Nobel (prémio que, quem está por dentro, sabe ser atribuído, nos últimos anos, apenas por mérito social e político, não literário), o Q fez pelo menos um programa a dizer bem do senhor laureado. Viva a congruência e a honestidade intelectual e a integridade de princípios dos energúmenos do Canal Q!!! Hooray!
quarta-feira, março 30, 2011
once again, with feeling
É verdade que "estamos velhos para ler e fazer poesia como líamos e fazíamos". Agora, "temos todo um conhecimento por trás, a poesia que nos sai tem de ser mais completa, tem de servir um propósito mais iluminado, mais esclarecido, temos outros conhecimentos, outras vivências, e a poesia não é para ser banalizada". Tudo bem. Não deixa de ser verdade. Mas sinto uma falta imensa, tremenda, mesmo, de escrever poesia e de ler poesia como lia, como escrevia. É terrível, para mim, ter perdido um grupo de amigos que escreviam poesia (e era mesmo poesia, a sério que era, não eram só umas coisitas que se iam escrevendo e mostrando), um verdadeiro grupo criativo, onde íamos crescendo enquanto poetas e enquanto pessoas, vendo bem as coisas.
Desde que voltei à faculdade, não se encontra um indivíduo que demonstre verdadeiro interesse por isso. Acredito, talvez no auge da minha tão bem sabida ingenuidade perante as coisas, que existirão por lá pessoas que gostem de poesia, que escrevam as suas coisas, que mantenham blogs, mas esta geração mais nova (os que entraram este ano são de 92) tem-me desiludido bastante. A vários níveis. Não é que não se interessem, simplesmente não parecem interessados naquilo que é a espinha dorsal do curso em que estão - e em questão: falo das pessoas do meu curso, Línguas, Literaturas e Culturas (Línguas e Literaturas Modernas, ainda quando entrei nele pela primeira vez), independentemente da variante escolhida... essas pessoas deviam, pelo menos, ter um mínimo interesse por literatura, julgo eu, ainda que mal, se calhar, mas deviam. E isto não é só poesia, está certo, mas é também, correcto? Ou não? Enfim, tendo uma predilecção por poesia, não descarto nem descuro nem desgosto da prosa. Gosto de ambas. E de escrita dramatúrgica, teatro, claro. Tudo. Não gosto é do que passa por ser literatura, e vejo toda a gente só a falar disso, como se a fosse. Falam do Harry Potter (da J.K. Rowling, aliás, ainda que nunca a refiram), do Dan Brown, do Miguel Sousa Tavares, como se isso fosse a verdadeira literatura, é possível, até, que nunca tenham lido nada que realmente valesse a pena. E isto é triste, é muito triste, para mim, pelo menos.
Tento falar com pessoas que vou conhecendo mas isso já nem é assunto que interesse, numa conversa. Não lhes interessa que tenha blogs ou cadernos, não estão interessados em ver os meus mais recentes textos, como outras pessoas, noutro tempo, no mesmo lugar, estiveram... as únicas pessoas que ainda vão escrevendo e editando (através de editoras online, estilo do it yourself, como a Lulu ou a EuEdito), escrevem, para ser directo, mal, com erros e sem coerência nem maturidade, ainda com um narcicismo muito vigoroso do qual não querem abdicar, por se recusarem à tal partilha edificante de textos, antes de os terem em formato livro. E, pronto, "estas" pessoas resumem-se a "esta" pessoa, um amigo de filosofia que, apesar de tudo, lê coisas boas, embora prefira falar de filmes, de drogas, de música, de mulheres, de carros, enfim... quase tudo, antes de se esgotar o assunto e falar de poesia.
Muito sinceramente, é possível que esse grupo a que pertenci fosse imaturo e infantil demais, talvez a nossa poesia de então ainda precisasse de crescer, se calhar alguns dos elementos desse quarteto original estejam melhor assim, evoluindo na sua individualidade de académicos e estudiosos, e desejo-lhes, com toda a honestidade, o melhor. Contudo, estes, que entraram agora, ainda estariam no "direito" de escrever e ler com a inocência que nos foi própria, com aquele encanto, a dádiva da poesia em conjunto, a maravilha de ler um poema novo de um amigo, a alegria de uma coisa nossa, individual e comum. Estariam no "direito" de não ser educados, maduros, formados pela escola e pela vida, de ainda se encantarem com o fazer poesia, com o ler poesia, sem análises, sem teorias do Bernstein ou do Adorno ou do Benjamin ou do Heidsieck ou do Alberto Pimenta ou do Steiner por trás, só as teorias do amor à arte, só a paixão pelas palavras, pelas imagens, pelas figuras de estilo, pela fluência dessa coisa maior da qual nos tornamos veículos. Claro que importam esses teóricos, esses linguistas, esses estudiosos, esses académicos, claro que sim, e não o digo com ironia, digo-o com franqueza, mas, na minha humilde perspectiva, demasiada instrução e teorização acaba por destruir o espírito "nobre" e "original" a que essa poesia despretensiosa se propõe. A própria Doris Lessing, no prefácio ao seu The Golden Notebook, alega ter desistido da escola com 14 anos, de achar que tinha perdido muito, numa fase da sua vida, e ter voltado a estudar, a frequentar seminários, leituras, apresentações, só para se aperceber que, afinal, estava a fazer melhor, sem toda aquela carga excessiva de teorias e de explicações académicas, que tudo aquilo era fastidioso, fatigante e, no fim de contas, não servia para nada. Enfim, estes jovens estavam em condições de, de uma forma limpa e revigorante, olharem para a poesia e escreverem a poesia, amarem-na, admirarem-na, não como coisa que criaram, mas como algo maior, que saiu deles, que passou por um processo de "filtragem", em que o "filtro" foram eles, autores do poema, poetas. É sobretudo isto que me dói.
Percebo que os meus antigos companheiros de poesia e de amizade já não estejam dispostos à minha forma "não-evoluida", imatura, infantil, estagnada, até, se quisermos, de ir fazendo poesia, mas estas novas pessoas não estão nesse caso e, no entanto, parecem velhos fora de tempo, a viver as suas vidas sem interesse, a ir às compras, a conversar acerca da Lady Gaga e da Katy Perry e de um sem-número de bandas de rock indie que não ficarão para a história, porque são todas, sem excepção, iguais entre si, a trabalhar para o curso "porque tem de ser"... mas ler, nada. Muito menos falar disso.
A namorada de um amigo, em jeito ofensivo, diz-lhe que ele vai ser "especialista em papéis", explicando de forma clara o que os jovens de hoje acham em relação ao nosso curso. Não é preciso amor a nada, nem gostar de ler nada. A única coisa que nos resta é aprender umas teorias, saber relacionar uns conceitos, ter pensamento lógico e abstracto e decorar umas regras linguísticas, saber fazer ensaios e recensões e teses. Porque um especialista em papéis não precisa de gostar de poesia.
Desde que voltei à faculdade, não se encontra um indivíduo que demonstre verdadeiro interesse por isso. Acredito, talvez no auge da minha tão bem sabida ingenuidade perante as coisas, que existirão por lá pessoas que gostem de poesia, que escrevam as suas coisas, que mantenham blogs, mas esta geração mais nova (os que entraram este ano são de 92) tem-me desiludido bastante. A vários níveis. Não é que não se interessem, simplesmente não parecem interessados naquilo que é a espinha dorsal do curso em que estão - e em questão: falo das pessoas do meu curso, Línguas, Literaturas e Culturas (Línguas e Literaturas Modernas, ainda quando entrei nele pela primeira vez), independentemente da variante escolhida... essas pessoas deviam, pelo menos, ter um mínimo interesse por literatura, julgo eu, ainda que mal, se calhar, mas deviam. E isto não é só poesia, está certo, mas é também, correcto? Ou não? Enfim, tendo uma predilecção por poesia, não descarto nem descuro nem desgosto da prosa. Gosto de ambas. E de escrita dramatúrgica, teatro, claro. Tudo. Não gosto é do que passa por ser literatura, e vejo toda a gente só a falar disso, como se a fosse. Falam do Harry Potter (da J.K. Rowling, aliás, ainda que nunca a refiram), do Dan Brown, do Miguel Sousa Tavares, como se isso fosse a verdadeira literatura, é possível, até, que nunca tenham lido nada que realmente valesse a pena. E isto é triste, é muito triste, para mim, pelo menos.
Tento falar com pessoas que vou conhecendo mas isso já nem é assunto que interesse, numa conversa. Não lhes interessa que tenha blogs ou cadernos, não estão interessados em ver os meus mais recentes textos, como outras pessoas, noutro tempo, no mesmo lugar, estiveram... as únicas pessoas que ainda vão escrevendo e editando (através de editoras online, estilo do it yourself, como a Lulu ou a EuEdito), escrevem, para ser directo, mal, com erros e sem coerência nem maturidade, ainda com um narcicismo muito vigoroso do qual não querem abdicar, por se recusarem à tal partilha edificante de textos, antes de os terem em formato livro. E, pronto, "estas" pessoas resumem-se a "esta" pessoa, um amigo de filosofia que, apesar de tudo, lê coisas boas, embora prefira falar de filmes, de drogas, de música, de mulheres, de carros, enfim... quase tudo, antes de se esgotar o assunto e falar de poesia.
Muito sinceramente, é possível que esse grupo a que pertenci fosse imaturo e infantil demais, talvez a nossa poesia de então ainda precisasse de crescer, se calhar alguns dos elementos desse quarteto original estejam melhor assim, evoluindo na sua individualidade de académicos e estudiosos, e desejo-lhes, com toda a honestidade, o melhor. Contudo, estes, que entraram agora, ainda estariam no "direito" de escrever e ler com a inocência que nos foi própria, com aquele encanto, a dádiva da poesia em conjunto, a maravilha de ler um poema novo de um amigo, a alegria de uma coisa nossa, individual e comum. Estariam no "direito" de não ser educados, maduros, formados pela escola e pela vida, de ainda se encantarem com o fazer poesia, com o ler poesia, sem análises, sem teorias do Bernstein ou do Adorno ou do Benjamin ou do Heidsieck ou do Alberto Pimenta ou do Steiner por trás, só as teorias do amor à arte, só a paixão pelas palavras, pelas imagens, pelas figuras de estilo, pela fluência dessa coisa maior da qual nos tornamos veículos. Claro que importam esses teóricos, esses linguistas, esses estudiosos, esses académicos, claro que sim, e não o digo com ironia, digo-o com franqueza, mas, na minha humilde perspectiva, demasiada instrução e teorização acaba por destruir o espírito "nobre" e "original" a que essa poesia despretensiosa se propõe. A própria Doris Lessing, no prefácio ao seu The Golden Notebook, alega ter desistido da escola com 14 anos, de achar que tinha perdido muito, numa fase da sua vida, e ter voltado a estudar, a frequentar seminários, leituras, apresentações, só para se aperceber que, afinal, estava a fazer melhor, sem toda aquela carga excessiva de teorias e de explicações académicas, que tudo aquilo era fastidioso, fatigante e, no fim de contas, não servia para nada. Enfim, estes jovens estavam em condições de, de uma forma limpa e revigorante, olharem para a poesia e escreverem a poesia, amarem-na, admirarem-na, não como coisa que criaram, mas como algo maior, que saiu deles, que passou por um processo de "filtragem", em que o "filtro" foram eles, autores do poema, poetas. É sobretudo isto que me dói.
Percebo que os meus antigos companheiros de poesia e de amizade já não estejam dispostos à minha forma "não-evoluida", imatura, infantil, estagnada, até, se quisermos, de ir fazendo poesia, mas estas novas pessoas não estão nesse caso e, no entanto, parecem velhos fora de tempo, a viver as suas vidas sem interesse, a ir às compras, a conversar acerca da Lady Gaga e da Katy Perry e de um sem-número de bandas de rock indie que não ficarão para a história, porque são todas, sem excepção, iguais entre si, a trabalhar para o curso "porque tem de ser"... mas ler, nada. Muito menos falar disso.
A namorada de um amigo, em jeito ofensivo, diz-lhe que ele vai ser "especialista em papéis", explicando de forma clara o que os jovens de hoje acham em relação ao nosso curso. Não é preciso amor a nada, nem gostar de ler nada. A única coisa que nos resta é aprender umas teorias, saber relacionar uns conceitos, ter pensamento lógico e abstracto e decorar umas regras linguísticas, saber fazer ensaios e recensões e teses. Porque um especialista em papéis não precisa de gostar de poesia.
segunda-feira, fevereiro 07, 2011
hm?
olha, sobretudo, obrigado pelas tardes, pelas noites, pelos almoços e pelos jantares, pela paciência, tantas vezes, em aturares tanta estupidez e tanta irascibilidade, obrigado pelo dinheiro "emprestado", pelos cremes, pelas pomadas, por partilhares um bocadinho da tua vida e o teu corpo, obrigado por vires ter a minha casa sempre que estive doente e não pude ir às aulas, obrigado por me fazeres rir e por me ouvires quando e sempre que estive mal e a vida custava e parecia que não valia a pena (às vezes ainda parece). muito obrigado por teres sido parcial em relação aos "amigos" da editora, por sempre teres tomado o meu partido, e, ainda por cima, não por uma parcialidade cega, mas por creres que a razão estava do meu lado. obrigado pela ajuda em trabalhos, pelo apoio e substancial força e motivação em relação ao que escrevo, obrigado por me teres convencido a trabalhar para que quatro poemas meus fossem publicados na Piolho, obrigado pelo carinho com que dormias abraçada a mim, obrigado pelo interesse pela música e pela literatura, obrigado por teres tentado fazer de mim uma pessoa melhor, mesmo que, agora, que olhamos para trás, percebamos que não foi da maneira correcta e que tanta coisa correu como não devia ter corrido.
quero muito que sejas feliz, algures, sempre, com uma pessoa boa e bonita e interessante que mereça tudo o que és e que tu mereças em tudo o que é, porque tu és uma criatura encantadora, e eu tive muita sorte, apesar de tudo, de poder ter feito parte de qualquer coisa em que metade eras tu.
quero muito que sejas feliz, algures, sempre, com uma pessoa boa e bonita e interessante que mereça tudo o que és e que tu mereças em tudo o que é, porque tu és uma criatura encantadora, e eu tive muita sorte, apesar de tudo, de poder ter feito parte de qualquer coisa em que metade eras tu.
terça-feira, dezembro 14, 2010
depois de toda uma tarde passada no hospital Curry Cabral (que se estenderá para a manhã de hoje):
HOSPITAL CURRY CABRAL
A Colien Honegger
Parecem as termas de Fellini, disse ela, a catalã
que não sabia nada dos hospitais
de Lisboa.
De facto, o chão fumava,
um vapor espesso subia-lhe pelas pernas
e acalorava os gatos.
E até um garnisé que por ali passeava em busca
das migalhas das visitas
cantou
desirmanado.
Mas era quase erótico o tom da sua voz
como a da vedeta italiana
desse filme barroco
caindo inocente da doença ambulante
levada por maqueiros gordos
e libidinosos.
As palmeiras derramavam um choro
no vento melancólico.
E ela a catalã, jovial e magra,
ia batendo palmas às aves embaraçadas,
e avançava a sorrir
pelas zonas infecto-contagiosas.
Mas não lhe era preciso aplaudir um tal cenário
de figurantes mudos e fantasmagóricos
com os seus roupões azuis
de sida
com os seus pijamas de cinza
e tuberculose.
Bastava-lhe olhar a direito ou fechar os olhos
e perguntar pelo Hotel Barcelona.
Mas ela preferiu tropeçar nos varões com soro
arrastados pelo verde do jardim
e passar rente a precipícios que deslizam deitados
à sombra da morte.
E é preciso amar e partir depressa.
Ou atordoar-se com os perigosos jogos do contágio.
Eu respiro a calma que a desgraça me oferece
entre galinhas-da-índia
a encurtar caminho
nesse antigo lugar de mulheres da vida
arrependidas.
Normalmente vou só e não me engano.
A amiga catalã é um devaneio
numa rambla de encontros tenebrosos
com outra espécie de morte.
Tantas vezes passei
e o poema não veio ao meu encontro.
Tantas vezes devorei este fumo quente e sensual
que começa por lamber-me as calças
e faz de mim um animal em erecção precoce.
Belas termas, estas, amiga tão distante,
nas tuas quimeras musicais
no teu regaço de coloridas risas de passagem.
Passa comigo e pede um copo de água
ou de cólera, como diz o brasileiro,
àquele rapaz com a morte a prazo.
A menina do filme, essa perversa inocente
Cardinale, fica-te tão bem,
diria ele,
esse jovem director de espectros
que te tira o chapéu
e deixa ver um quisto inquietante
na cabeça pelada de trapezista mortal.
Traz contigo mais música.
E passeia comigo entre pavões rubros-azuis
e corpos que rolam
sentados ou jacentes e avançam
para a saída
da vida.
Armando Silva Carvalho, Lisboas, Lisboa, Quetzal, 2000; ed. ut. O que Foi Passado a Limpo, Lisboa, Assírio e Alvim, 2007; in Poemas com Cinema (org.: Frias, Joana Matos; Queirós, Luís Miguel; Martelo, Rosa Maria), Lisboa, Assírio & Alvim, 2010
NB: por favor, notem, com agrado, ou não, que Armando da Silva Carvalho provém do mesmo concelho que este vosso humilde amigo: Óbidos.
que não sabia nada dos hospitais
de Lisboa.
De facto, o chão fumava,
um vapor espesso subia-lhe pelas pernas
e acalorava os gatos.
E até um garnisé que por ali passeava em busca
das migalhas das visitas
cantou
desirmanado.
Mas era quase erótico o tom da sua voz
como a da vedeta italiana
desse filme barroco
caindo inocente da doença ambulante
levada por maqueiros gordos
e libidinosos.
As palmeiras derramavam um choro
no vento melancólico.
E ela a catalã, jovial e magra,
ia batendo palmas às aves embaraçadas,
e avançava a sorrir
pelas zonas infecto-contagiosas.
Mas não lhe era preciso aplaudir um tal cenário
de figurantes mudos e fantasmagóricos
com os seus roupões azuis
de sida
com os seus pijamas de cinza
e tuberculose.
Bastava-lhe olhar a direito ou fechar os olhos
e perguntar pelo Hotel Barcelona.
Mas ela preferiu tropeçar nos varões com soro
arrastados pelo verde do jardim
e passar rente a precipícios que deslizam deitados
à sombra da morte.
E é preciso amar e partir depressa.
Ou atordoar-se com os perigosos jogos do contágio.
Eu respiro a calma que a desgraça me oferece
entre galinhas-da-índia
a encurtar caminho
nesse antigo lugar de mulheres da vida
arrependidas.
Normalmente vou só e não me engano.
A amiga catalã é um devaneio
numa rambla de encontros tenebrosos
com outra espécie de morte.
Tantas vezes passei
e o poema não veio ao meu encontro.
Tantas vezes devorei este fumo quente e sensual
que começa por lamber-me as calças
e faz de mim um animal em erecção precoce.
Belas termas, estas, amiga tão distante,
nas tuas quimeras musicais
no teu regaço de coloridas risas de passagem.
Passa comigo e pede um copo de água
ou de cólera, como diz o brasileiro,
àquele rapaz com a morte a prazo.
A menina do filme, essa perversa inocente
Cardinale, fica-te tão bem,
diria ele,
esse jovem director de espectros
que te tira o chapéu
e deixa ver um quisto inquietante
na cabeça pelada de trapezista mortal.
Traz contigo mais música.
E passeia comigo entre pavões rubros-azuis
e corpos que rolam
sentados ou jacentes e avançam
para a saída
da vida.
Armando Silva Carvalho, Lisboas, Lisboa, Quetzal, 2000; ed. ut. O que Foi Passado a Limpo, Lisboa, Assírio e Alvim, 2007; in Poemas com Cinema (org.: Frias, Joana Matos; Queirós, Luís Miguel; Martelo, Rosa Maria), Lisboa, Assírio & Alvim, 2010
NB: por favor, notem, com agrado, ou não, que Armando da Silva Carvalho provém do mesmo concelho que este vosso humilde amigo: Óbidos.
quinta-feira, dezembro 09, 2010
segunda-feira, dezembro 06, 2010
domingo, novembro 14, 2010
grão-de-bico
uma bolsinha numa gaveta não é apenas uma bolsinha numa gaveta, nem um tupperware com massa no frigorífico se resume apenas a isso, ou um cheiro ou uma mancha num lençol, ou vagas memórias de corpos a amarem-se num colchão estreito, no chão mal envernizado da sala; nem tampouco o caminho de todos os dias é o caminho de todos os dias, passando pelos cafés e pela estação dos comboios, se sei que tocámos em tudo isso e aí permanecemos numa eternidade de sentidos, só que, agora, isso acabou-se e o que resta são só fragmentos de memórias, como estilhaços de espelhos.
e tudo aguça uma dor imensa que não se cala, mesmo que eu queira.
e tudo aguça uma dor imensa que não se cala, mesmo que eu queira.
sexta-feira, novembro 12, 2010
apneia para uma barracuda

daqui a uns anos, quando talvez te souber com outra pessoa, é possível que queira desaparecer ainda mais do que já quero hoje, só que vivemos em sociedade e, se queremos parecer sãos, não podemos estar magoados nunca. e talvez tenha de fingir coisas falsas. mas o meu coração há-de estar morto à mesma, digo eu, para todos os que estiverem para aí e que factualmente acreditem na verdade absoluta e concreta destas coisas do amor.
terça-feira, novembro 09, 2010
à minha querida Oliveira Martins (de facto querida, sem ironias)
Não é que discorde de tudo o que é dito nas aulas da professora (doutora, para quem fizer mesmo muita questão) Isabel Oliveira Martins, mas, enfim, há uma coisa que me irrita bastante, quando fala dos "cowboys", com toda a propriedade, é certo, que é pôr-se a falar do Clint Eastwood e do Lucky Luke como imagens míticas do oeste selvagem. Até aqui, tudo bem, são-no, de facto... agora, convém esclarecer uma coisa: são imagens míticas do oeste americano, sim, mas criadas e popularizadas por europeus. Se quiser referir-se a John Wayne, concordo plenamente, ou, enfim, aos filmes do velho oeste de, por exemplo, Sam Peckinpah, sim, tudo bem... mas falar sempre do Clint Eastwood e do Lucky Luke, não, a sério.
Também é verdade que o Clint Eastwood fez uns westerns dele mesmo, e poder-se-ia argumentar que esses filmes são "americanos", mas passa-se que o próprio Eastwood alega ter tirado toda a inspiração, para os filmes, do que aprendeu com Sergio Leone. E Leone, isto é bom que se saiba, dizia que queria mesmo "europeízar" os westerns, quase num acto de vingança contra a indústria cinematográfica norte-americana, por terem "americanizado" imagética clássica europeia nos filmes.
Já Lucky Luke trata-se de uma personagem de banda-desenhada franco-belga, criada pelo belga Morris (Maurice de Bevere, para quem estiver interessado) que, embora pegando nalgumas imagens tiradas dos filmes clássicos norte-americanos, nomeadamente a do cowboy/pistoleiro solitário, que parte, no fim de cada aventura, em direcção ao pôr-do-sol, assobiando uma melodia, montado no seu cavalo, tem muito pouco de americano... são notórios o humor e sarcasmo próprios da banda-desenhada europeia, particularmente a franco-belga, que estão longe de caracterizar os cowboys típicos dos westerns tradicionais.
Portanto, o meu ponto de vista é apenas o de que falar destas duas personagens (Clint Eastwood, aqui, como personagem, claramente tirada da trilogia italiana que o popularizou, mais do que os seus próprios filmes, anos mais tarde) é errado, porque isso não retrata a visão norte-americana deles mesmos. E digo-o aqui porque, enfim, nunca tenho oportunidade para o fazer nas aulas, e já venho com esta vontade entalada há uns semestres valentes.
Também é verdade que o Clint Eastwood fez uns westerns dele mesmo, e poder-se-ia argumentar que esses filmes são "americanos", mas passa-se que o próprio Eastwood alega ter tirado toda a inspiração, para os filmes, do que aprendeu com Sergio Leone. E Leone, isto é bom que se saiba, dizia que queria mesmo "europeízar" os westerns, quase num acto de vingança contra a indústria cinematográfica norte-americana, por terem "americanizado" imagética clássica europeia nos filmes.
Já Lucky Luke trata-se de uma personagem de banda-desenhada franco-belga, criada pelo belga Morris (Maurice de Bevere, para quem estiver interessado) que, embora pegando nalgumas imagens tiradas dos filmes clássicos norte-americanos, nomeadamente a do cowboy/pistoleiro solitário, que parte, no fim de cada aventura, em direcção ao pôr-do-sol, assobiando uma melodia, montado no seu cavalo, tem muito pouco de americano... são notórios o humor e sarcasmo próprios da banda-desenhada europeia, particularmente a franco-belga, que estão longe de caracterizar os cowboys típicos dos westerns tradicionais.
Portanto, o meu ponto de vista é apenas o de que falar destas duas personagens (Clint Eastwood, aqui, como personagem, claramente tirada da trilogia italiana que o popularizou, mais do que os seus próprios filmes, anos mais tarde) é errado, porque isso não retrata a visão norte-americana deles mesmos. E digo-o aqui porque, enfim, nunca tenho oportunidade para o fazer nas aulas, e já venho com esta vontade entalada há uns semestres valentes.
quinta-feira, outubro 28, 2010
oh, pá, a sério...
Um dia planto uma bomba na sede da Nicola (ou na casa do(s) "criativo(s)" que teve(tiveram) a brilhante ideia das "frases Nicola". Hoje é o dia.
Juro... não há pachorra, já, para tanta idiotice em pacotinhos de açúcar, e gente a citar aquelas baboseiras à parva...
Juro... não há pachorra, já, para tanta idiotice em pacotinhos de açúcar, e gente a citar aquelas baboseiras à parva...
domingo, outubro 24, 2010
a propósito de um sem-número de coisas:
É preciso dizer-se que este blog não está morto. Eu é que não tenho tido pachorra (e o termo é mesmo esse, pachorra, não é falta de tempo, nem incapacidade, nem motivos afins) para escrever nada aqui. Tenho tentado escrever nos outros blogs e nos cadernos, mas mesmo isso tem sido bastante forçado, não sabendo, eu, a razão ou razões para tal. Eventualmente deve-se a um desentendimento com amigos, na consequência de uma tentativa gorada de publicar o meu livro (físico) através da editora deles, e de uma conversa com uma dessas pessoas que veio no seguimento desse facto, em que a pessoa me dizia coisas que me deixaram a pensar seriamente (provavelmente mais do que devia) nas minhas rotinas de escrita, na minha escrita em si e numa série de rituais, processos e relações advindos disso. Por isso - também -tenho escrito menos, mas é possível que pesem ainda factos como andar, ainda por cima, a ler menos, mais cansado, por causa da faculdade e de um ritmo novo (mudei de casa, este semestre), ao qual ainda não me habituei, por causa de mudanças de cadeiras à última hora, não ter ninguém a ler-me, ou a conversar comigo acerca destas coisas, ter um crédito estudante para tratar, sem o qual ando aqui sem dinheiro e cheio das preocupações estupidamente práticas que surgem daí, e etc.
Mas, enfim, no meio disto tudo, há uma coisa, pelo menos, que vale a pena. Existe esta pessoa que me tem, e que me vai acompanhando e fazendo com que as coisas sejam boas. E, aliás, este texto, ainda que com um início em forma de lamúria, é para ela. Porque ela é linda e mantém-me numa sanidade ao longo disto, numa serenidade apaixonada, que nunca ninguém me soube dar. Por todas essas coisas, sou cada dia mais Eu, juntamente com aquilo que é ela, e somos juntos uma outra coisa, melhor, mais capaz, a evoluir todos os dias. Isto é mais um obrigado, do que uma queixa. Sabe que me tens, só tu, sempre, se quiseres que seja para sempre, e cada dia mais e mais, dentro do sempre, se o quiseres e se mo pedires.
Amo-te. Mesmo muito.
Mas, enfim, no meio disto tudo, há uma coisa, pelo menos, que vale a pena. Existe esta pessoa que me tem, e que me vai acompanhando e fazendo com que as coisas sejam boas. E, aliás, este texto, ainda que com um início em forma de lamúria, é para ela. Porque ela é linda e mantém-me numa sanidade ao longo disto, numa serenidade apaixonada, que nunca ninguém me soube dar. Por todas essas coisas, sou cada dia mais Eu, juntamente com aquilo que é ela, e somos juntos uma outra coisa, melhor, mais capaz, a evoluir todos os dias. Isto é mais um obrigado, do que uma queixa. Sabe que me tens, só tu, sempre, se quiseres que seja para sempre, e cada dia mais e mais, dentro do sempre, se o quiseres e se mo pedires.
Amo-te. Mesmo muito.
quinta-feira, agosto 12, 2010
éapmidmv
(tudo o que faço, faço-o por tua causa, e tudo o que faço por tua causa, faço-o por minha causa.)
quinta-feira, julho 29, 2010
a propósito da amizade que retribuo, ou não
tenho de pedir desculpa a alguns amigos. tenho mesmo. mas é que também não tenho realmente paciência para os aturar todas as noites, quando todas as noites estou mal por causa da(s) mesma(s) coisa(s)... e é chato, é mesmo muito chato, muito irritante, mesmo, não poder falar disto com ninguém e ter de estar mal para eles, não aguentar uma noite inteira a ouvir pessoas a assobiar ao meu lado, a falar de banalidades, com o nobre e despretensioso objectivo de me distrairem... essas coisas nunca funcionaram comigo, esses intuitos de "puxar para cima". quando estou mal, estou mal, não estou mal a querer fingir que estou bem. e, sim, quero estar com pessoas, mas pessoas que até me podem ignorar, só não quero estar ali fisicamente sozinho, não gosto mesmo que digam piadas para me animar, isso só me deixa pior, porque não consigo rir, e dói-me ainda mais quando me apercebo disso. quero uma pequena bolsa de depressão e angústia partilhadas, à minha volta, é isso que quero; quero os meus amigos bem, mas a deixarem-me estar mal, a perceberem que é mesmo assim que estou, por mais que queira tê-los ali à minha beira.
de novo, desculpem-me. a sério...
de novo, desculpem-me. a sério...
terça-feira, julho 27, 2010
à falta de outro sítio onde pôr isto
por favor não te vás embora de encontro aos becos levando uma mulher pela mão. por favor, fica comigo, tenho frio, tenho uma flor de lótus, o coração a rebentar-me nas mãos como se idêntico a uma flor de lótus atrasada, a ter de morrer por causa de uma idiossincracia anacrónica, como se existisse mas não devesse existir.
come lá o meu coração e eu poderei imaginar uma imagem bíblica para isso.
come lá o meu coração e eu poderei imaginar uma imagem bíblica para isso.
segunda-feira, julho 26, 2010
adenda
(É tão possível que esteja - que seja - errado. Mas tudo o que digo, digo-o porque o sinto. E essa é a maior verdade que posso dar a quem me conhece, a quem me ouve, a quem me lê.)
domingo, julho 25, 2010
monólogo a pedido
Tenho uma pessoa muito especial (se não a pessoa mais especial) que me pediu isto: que escrevesse no meu blog sobre as minhas teorias ou sobre literatura. Ao certo, sobre o quê? As minhas teorias são desconexas e não fazem sentido, sem ser para mim. Nem sequer posso dizer, em boa verdade, que tenho teorias.
As minhas teorias são numa veia de "anti-teoria", isto é, abomino quem pensa por todos, quem presume e pretende e deseja pensar por todos, oferecer uma verdade universal embrulhada em boas intenções e um intuito qualquer de evolução mental. A única teoria, que tenho, ou, pelo menos, a única que sigo, é a de que devemos ser o que somos, que devemos parar de tentar explicar o que sentimos às luzes tão desfocadas de um conhecimento científico e psicológico/psiquiátrico, tudo sempre sendo refutado dia após dia. Somos só um composto de coisas, depende de nós se lhes queremos chamar doenças ou cartilagens ou nervos, se lhes chamamos alma, genuidade, características, carácter, ser, propriedade. Somos isto: existimos, sentimos. O que somos é, em última análise, o que sentimos, somos todos muito egoístas, a esconder isso porque a sociedade ocidental milenar e patriarcal e judaico-cristã e platónica e socrática nos ensina: "o egoísmo é mau". E talvez seja, mas, vistas bem as coisas, somos todos egoístas. A pedir que nos deixem em paz, a não saber deixar os outros em paz, numa demanda quase absurda, de impossível, em busca da nossa própria felicidade e auto-preservação. Mantemos um altruísmo de causas sociais, de abnegação, para esconder um egoísmo último que carregamos cá dentro. E somos altruístas porque alguém nos prometeu o céu ou uma recompensa por esse altruísmo.
Se a nossa genuidade é a única coisa que temos, e a nossa genuidade e a nossa integridade comportam um egoísmo, porque não assumir esse mesmo comportamento? Porque, depois, enfim, recebemos o comportamento de volta. Só recebemos o que damos. Pedimos muito e às vezes não damos nada, portanto, ninguém nos devolve o que não demos. Não há o que devolver. Mas devíamos, ao menos, assumir o nosso egocentrismo inerente a ser humano. A nossa necessidade de ser, de ser tudo, de ser o centro de tudo. Preservamo-nos, apesar de tudo, e vamos desaprendendo uma inocência infantil que nos deixava, enfim, vulneráveis às armadilhas de viver: ao amor, à entrega, ao compromisso, à responsabilidade. E a vida deixa de ter piada, porque complicamos as coisas que à partida seriam simples. O amor, no seu estado puro, é simples. Mas nós não aguentamos. Não aguentamos, porque complicamos. Não nos basta sentir, temos que explicar, temos que sobreviver, que decidir que o amor não chega, que já não somos crianças, que o mundo não é um lugar para crianças.
Enquanto eu for uma criança o mundo há-de ter que ter um espaço para mim, dê lá por onde der.
As minhas teorias são numa veia de "anti-teoria", isto é, abomino quem pensa por todos, quem presume e pretende e deseja pensar por todos, oferecer uma verdade universal embrulhada em boas intenções e um intuito qualquer de evolução mental. A única teoria, que tenho, ou, pelo menos, a única que sigo, é a de que devemos ser o que somos, que devemos parar de tentar explicar o que sentimos às luzes tão desfocadas de um conhecimento científico e psicológico/psiquiátrico, tudo sempre sendo refutado dia após dia. Somos só um composto de coisas, depende de nós se lhes queremos chamar doenças ou cartilagens ou nervos, se lhes chamamos alma, genuidade, características, carácter, ser, propriedade. Somos isto: existimos, sentimos. O que somos é, em última análise, o que sentimos, somos todos muito egoístas, a esconder isso porque a sociedade ocidental milenar e patriarcal e judaico-cristã e platónica e socrática nos ensina: "o egoísmo é mau". E talvez seja, mas, vistas bem as coisas, somos todos egoístas. A pedir que nos deixem em paz, a não saber deixar os outros em paz, numa demanda quase absurda, de impossível, em busca da nossa própria felicidade e auto-preservação. Mantemos um altruísmo de causas sociais, de abnegação, para esconder um egoísmo último que carregamos cá dentro. E somos altruístas porque alguém nos prometeu o céu ou uma recompensa por esse altruísmo.
Se a nossa genuidade é a única coisa que temos, e a nossa genuidade e a nossa integridade comportam um egoísmo, porque não assumir esse mesmo comportamento? Porque, depois, enfim, recebemos o comportamento de volta. Só recebemos o que damos. Pedimos muito e às vezes não damos nada, portanto, ninguém nos devolve o que não demos. Não há o que devolver. Mas devíamos, ao menos, assumir o nosso egocentrismo inerente a ser humano. A nossa necessidade de ser, de ser tudo, de ser o centro de tudo. Preservamo-nos, apesar de tudo, e vamos desaprendendo uma inocência infantil que nos deixava, enfim, vulneráveis às armadilhas de viver: ao amor, à entrega, ao compromisso, à responsabilidade. E a vida deixa de ter piada, porque complicamos as coisas que à partida seriam simples. O amor, no seu estado puro, é simples. Mas nós não aguentamos. Não aguentamos, porque complicamos. Não nos basta sentir, temos que explicar, temos que sobreviver, que decidir que o amor não chega, que já não somos crianças, que o mundo não é um lugar para crianças.
Enquanto eu for uma criança o mundo há-de ter que ter um espaço para mim, dê lá por onde der.
sexta-feira, julho 16, 2010
quarta-feira, julho 14, 2010
Linoleum and Love
They were older then, like their kitchen floor,
linoleum and love worn together more
by each treading heart. They were never sure:
had they found happiness, or simply a way to endure?
My grandfather’s faithfulness was tough and taciturn.
Builder and fisherman, he did not learn
patience, except for fish. He’s hook his fingers in the air,
alive with cigarettes, and catch its burning as ashes in his hair.
His eyes were full of stories we never dared
disbelieve. Looking back, I think he cared,
at least as best he could,
his hands hard with working over water and wood.
Every time we visited, my grandmother gave
us scraps. “For the dogs,” she’d say.
Staying in love; knowing how to save,
make a little go a long way.
Such a brave economy of emotion.
it was the best lesson my grandmother taught,
something we might lean on,
knowing how she’d fought
her way into believing. Her rough
knuckled rosary, her tea-towel with its thin-skinned pride,
had to be, for her, hope enough
until at last: a knocking at the door, a veil drawn aside.
Noel Rowe, Next to Nothing, Vagabond Press, Sydney, 2004
linoleum and love worn together more
by each treading heart. They were never sure:
had they found happiness, or simply a way to endure?
My grandfather’s faithfulness was tough and taciturn.
Builder and fisherman, he did not learn
patience, except for fish. He’s hook his fingers in the air,
alive with cigarettes, and catch its burning as ashes in his hair.
His eyes were full of stories we never dared
disbelieve. Looking back, I think he cared,
at least as best he could,
his hands hard with working over water and wood.
Every time we visited, my grandmother gave
us scraps. “For the dogs,” she’d say.
Staying in love; knowing how to save,
make a little go a long way.
Such a brave economy of emotion.
it was the best lesson my grandmother taught,
something we might lean on,
knowing how she’d fought
her way into believing. Her rough
knuckled rosary, her tea-towel with its thin-skinned pride,
had to be, for her, hope enough
until at last: a knocking at the door, a veil drawn aside.
Noel Rowe, Next to Nothing, Vagabond Press, Sydney, 2004
sábado, julho 10, 2010
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