terça-feira, dezembro 14, 2010

depois de toda uma tarde passada no hospital Curry Cabral (que se estenderá para a manhã de hoje):

HOSPITAL CURRY CABRAL

A Colien Honegger

Parecem as termas de Fellini, disse ela, a catalã
que não sabia nada dos hospitais
de Lisboa.

De facto, o chão fumava,
um vapor espesso subia-lhe pelas pernas
e acalorava os gatos.
E até um garnisé que por ali passeava em busca
das migalhas das visitas
cantou
desirmanado.

Mas era quase erótico o tom da sua voz
como a da vedeta italiana
desse filme barroco
caindo inocente da doença ambulante
levada por maqueiros gordos
e libidinosos.

As palmeiras derramavam um choro
no vento melancólico.
E ela a catalã, jovial e magra,
ia batendo palmas às aves embaraçadas,
e avançava a sorrir
pelas zonas infecto-contagiosas.
Mas não lhe era preciso aplaudir um tal cenário
de figurantes mudos e fantasmagóricos
com os seus roupões azuis
de sida
com os seus pijamas de cinza
e tuberculose.
Bastava-lhe olhar a direito ou fechar os olhos
e perguntar pelo Hotel Barcelona.

Mas ela preferiu tropeçar nos varões com soro
arrastados pelo verde do jardim
e passar rente a precipícios que deslizam deitados
à sombra da morte.

E é preciso amar e partir depressa.
Ou atordoar-se com os perigosos jogos do contágio.
Eu respiro a calma que a desgraça me oferece
entre galinhas-da-índia
a encurtar caminho
nesse antigo lugar de mulheres da vida
arrependidas.

Normalmente vou só e não me engano.
A amiga catalã é um devaneio
numa rambla de encontros tenebrosos
com outra espécie de morte.

Tantas vezes passei
e o poema não veio ao meu encontro.
Tantas vezes devorei este fumo quente e sensual
que começa por lamber-me as calças
e faz de mim um animal em erecção precoce.
Belas termas, estas, amiga tão distante,
nas tuas quimeras musicais
no teu regaço de coloridas risas de passagem.

Passa comigo e pede um copo de água
ou de cólera, como diz o brasileiro,
àquele rapaz com a morte a prazo.
A menina do filme, essa perversa inocente
Cardinale, fica-te tão bem,
diria ele,
esse jovem director de espectros
que te tira o chapéu
e deixa ver um quisto inquietante
na cabeça pelada de trapezista mortal.
Traz contigo mais música.
E passeia comigo entre pavões rubros-azuis
e corpos que rolam
sentados ou jacentes e avançam
para a saída
da vida.


Armando Silva Carvalho, Lisboas, Lisboa, Quetzal, 2000; ed. ut. O que Foi Passado a Limpo, Lisboa, Assírio e Alvim, 2007; in Poemas com Cinema (org.: Frias, Joana Matos; Queirós, Luís Miguel; Martelo, Rosa Maria), Lisboa, Assírio & Alvim, 2010


NB: por favor, notem, com agrado, ou não, que Armando da Silva Carvalho provém do mesmo concelho que este vosso humilde amigo: Óbidos.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

dia de frequência de Leituras Orientadas


Com mais um screenshot de Silent Hill 2 a ilustrar.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

such a nice sunday afternoon


Pôr assim umas coisitas de vez em quando, para não cuidarem que faleci, ou isso.

domingo, novembro 14, 2010

grão-de-bico

uma bolsinha numa gaveta não é apenas uma bolsinha numa gaveta, nem um tupperware com massa no frigorífico se resume apenas a isso, ou um cheiro ou uma mancha num lençol, ou vagas memórias de corpos a amarem-se num colchão estreito, no chão mal envernizado da sala; nem tampouco o caminho de todos os dias é o caminho de todos os dias, passando pelos cafés e pela estação dos comboios, se sei que tocámos em tudo isso e aí permanecemos numa eternidade de sentidos, só que, agora, isso acabou-se e o que resta são só fragmentos de memórias, como estilhaços de espelhos.

e tudo aguça uma dor imensa que não se cala, mesmo que eu queira.

sexta-feira, novembro 12, 2010

apneia para uma barracuda




daqui a uns anos, quando talvez te souber com outra pessoa, é possível que queira desaparecer ainda mais do que já quero hoje, só que vivemos em sociedade e, se queremos parecer sãos, não podemos estar magoados nunca. e talvez tenha de fingir coisas falsas. mas o meu coração há-de estar morto à mesma, digo eu, para todos os que estiverem para aí e que factualmente acreditem na verdade absoluta e concreta destas coisas do amor.

terça-feira, novembro 09, 2010

à minha querida Oliveira Martins (de facto querida, sem ironias)

Não é que discorde de tudo o que é dito nas aulas da professora (doutora, para quem fizer mesmo muita questão) Isabel Oliveira Martins, mas, enfim, há uma coisa que me irrita bastante, quando fala dos "cowboys", com toda a propriedade, é certo, que é pôr-se a falar do Clint Eastwood e do Lucky Luke como imagens míticas do oeste selvagem. Até aqui, tudo bem, são-no, de facto... agora, convém esclarecer uma coisa: são imagens míticas do oeste americano, sim, mas criadas e popularizadas por europeus. Se quiser referir-se a John Wayne, concordo plenamente, ou, enfim, aos filmes do velho oeste de, por exemplo, Sam Peckinpah, sim, tudo bem... mas falar sempre do Clint Eastwood e do Lucky Luke, não, a sério.
Também é verdade que o Clint Eastwood fez uns westerns dele mesmo, e poder-se-ia argumentar que esses filmes são "americanos", mas passa-se que o próprio Eastwood alega ter tirado toda a inspiração, para os filmes, do que aprendeu com Sergio Leone. E Leone, isto é bom que se saiba, dizia que queria mesmo "europeízar" os westerns, quase num acto de vingança contra a indústria cinematográfica norte-americana, por terem "americanizado" imagética clássica europeia nos filmes.
Já Lucky Luke trata-se de uma personagem de banda-desenhada franco-belga, criada pelo belga Morris (Maurice de Bevere, para quem estiver interessado) que, embora pegando nalgumas imagens tiradas dos filmes clássicos norte-americanos, nomeadamente a do cowboy/pistoleiro solitário, que parte, no fim de cada aventura, em direcção ao pôr-do-sol, assobiando uma melodia, montado no seu cavalo, tem muito pouco de americano... são notórios o humor e sarcasmo próprios da banda-desenhada europeia, particularmente a franco-belga, que estão longe de caracterizar os cowboys típicos dos westerns tradicionais.
Portanto, o meu ponto de vista é apenas o de que falar destas duas personagens (Clint Eastwood, aqui, como personagem, claramente tirada da trilogia italiana que o popularizou, mais do que os seus próprios filmes, anos mais tarde) é errado, porque isso não retrata a visão norte-americana deles mesmos. E digo-o aqui porque, enfim, nunca tenho oportunidade para o fazer nas aulas, e já venho com esta vontade entalada há uns semestres valentes.

quinta-feira, outubro 28, 2010

oh, pá, a sério...

Um dia planto uma bomba na sede da Nicola (ou na casa do(s) "criativo(s)" que teve(tiveram) a brilhante ideia das "frases Nicola". Hoje é o dia.

Juro... não há pachorra, já, para tanta idiotice em pacotinhos de açúcar, e gente a citar aquelas baboseiras à parva...

domingo, outubro 24, 2010

a propósito de um sem-número de coisas:

É preciso dizer-se que este blog não está morto. Eu é que não tenho tido pachorra (e o termo é mesmo esse, pachorra, não é falta de tempo, nem incapacidade, nem motivos afins) para escrever nada aqui. Tenho tentado escrever nos outros blogs e nos cadernos, mas mesmo isso tem sido bastante forçado, não sabendo, eu, a razão ou razões para tal. Eventualmente deve-se a um desentendimento com amigos, na consequência de uma tentativa gorada de publicar o meu livro (físico) através da editora deles, e de uma conversa com uma dessas pessoas que veio no seguimento desse facto, em que a pessoa me dizia coisas que me deixaram a pensar seriamente (provavelmente mais do que devia) nas minhas rotinas de escrita, na minha escrita em si e numa série de rituais, processos e relações advindos disso. Por isso - também -tenho escrito menos, mas é possível que pesem ainda factos como andar, ainda por cima, a ler menos, mais cansado, por causa da faculdade e de um ritmo novo (mudei de casa, este semestre), ao qual ainda não me habituei, por causa de mudanças de cadeiras à última hora, não ter ninguém a ler-me, ou a conversar comigo acerca destas coisas, ter um crédito estudante para tratar, sem o qual ando aqui sem dinheiro e cheio das preocupações estupidamente práticas que surgem daí, e etc.

Mas, enfim, no meio disto tudo, há uma coisa, pelo menos, que vale a pena. Existe esta pessoa que me tem, e que me vai acompanhando e fazendo com que as coisas sejam boas. E, aliás, este texto, ainda que com um início em forma de lamúria, é para ela. Porque ela é linda e mantém-me numa sanidade ao longo disto, numa serenidade apaixonada, que nunca ninguém me soube dar. Por todas essas coisas, sou cada dia mais Eu, juntamente com aquilo que é ela, e somos juntos uma outra coisa, melhor, mais capaz, a evoluir todos os dias. Isto é mais um obrigado, do que uma queixa. Sabe que me tens, só tu, sempre, se quiseres que seja para sempre, e cada dia mais e mais, dentro do sempre, se o quiseres e se mo pedires.

Amo-te. Mesmo muito.

quinta-feira, agosto 12, 2010

éapmidmv

(tudo o que faço, faço-o por tua causa, e tudo o que faço por tua causa, faço-o por minha causa.)

quinta-feira, julho 29, 2010

a propósito da amizade que retribuo, ou não

tenho de pedir desculpa a alguns amigos. tenho mesmo. mas é que também não tenho realmente paciência para os aturar todas as noites, quando todas as noites estou mal por causa da(s) mesma(s) coisa(s)... e é chato, é mesmo muito chato, muito irritante, mesmo, não poder falar disto com ninguém e ter de estar mal para eles, não aguentar uma noite inteira a ouvir pessoas a assobiar ao meu lado, a falar de banalidades, com o nobre e despretensioso objectivo de me distrairem... essas coisas nunca funcionaram comigo, esses intuitos de "puxar para cima". quando estou mal, estou mal, não estou mal a querer fingir que estou bem. e, sim, quero estar com pessoas, mas pessoas que até me podem ignorar, só não quero estar ali fisicamente sozinho, não gosto mesmo que digam piadas para me animar, isso só me deixa pior, porque não consigo rir, e dói-me ainda mais quando me apercebo disso. quero uma pequena bolsa de depressão e angústia partilhadas, à minha volta, é isso que quero; quero os meus amigos bem, mas a deixarem-me estar mal, a perceberem que é mesmo assim que estou, por mais que queira tê-los ali à minha beira.

de novo, desculpem-me. a sério...

terça-feira, julho 27, 2010

à falta de outro sítio onde pôr isto

por favor não te vás embora de encontro aos becos levando uma mulher pela mão. por favor, fica comigo, tenho frio, tenho uma flor de lótus, o coração a rebentar-me nas mãos como se idêntico a uma flor de lótus atrasada, a ter de morrer por causa de uma idiossincracia anacrónica, como se existisse mas não devesse existir.
come lá o meu coração e eu poderei imaginar uma imagem bíblica para isso.

segunda-feira, julho 26, 2010

adenda

(É tão possível que esteja - que seja - errado. Mas tudo o que digo, digo-o porque o sinto. E essa é a maior verdade que posso dar a quem me conhece, a quem me ouve, a quem me lê.)

domingo, julho 25, 2010

monólogo a pedido

Tenho uma pessoa muito especial (se não a pessoa mais especial) que me pediu isto: que escrevesse no meu blog sobre as minhas teorias ou sobre literatura. Ao certo, sobre o quê? As minhas teorias são desconexas e não fazem sentido, sem ser para mim. Nem sequer posso dizer, em boa verdade, que tenho teorias.
As minhas teorias são numa veia de "anti-teoria", isto é, abomino quem pensa por todos, quem presume e pretende e deseja pensar por todos, oferecer uma verdade universal embrulhada em boas intenções e um intuito qualquer de evolução mental. A única teoria, que tenho, ou, pelo menos, a única que sigo, é a de que devemos ser o que somos, que devemos parar de tentar explicar o que sentimos às luzes tão desfocadas de um conhecimento científico e psicológico/psiquiátrico, tudo sempre sendo refutado dia após dia. Somos só um composto de coisas, depende de nós se lhes queremos chamar doenças ou cartilagens ou nervos, se lhes chamamos alma, genuidade, características, carácter, ser, propriedade. Somos isto: existimos, sentimos. O que somos é, em última análise, o que sentimos, somos todos muito egoístas, a esconder isso porque a sociedade ocidental milenar e patriarcal e judaico-cristã e platónica e socrática nos ensina: "o egoísmo é mau". E talvez seja, mas, vistas bem as coisas, somos todos egoístas. A pedir que nos deixem em paz, a não saber deixar os outros em paz, numa demanda quase absurda, de impossível, em busca da nossa própria felicidade e auto-preservação. Mantemos um altruísmo de causas sociais, de abnegação, para esconder um egoísmo último que carregamos cá dentro. E somos altruístas porque alguém nos prometeu o céu ou uma recompensa por esse altruísmo.
Se a nossa genuidade é a única coisa que temos, e a nossa genuidade e a nossa integridade comportam um egoísmo, porque não assumir esse mesmo comportamento? Porque, depois, enfim, recebemos o comportamento de volta. Só recebemos o que damos. Pedimos muito e às vezes não damos nada, portanto, ninguém nos devolve o que não demos. Não há o que devolver. Mas devíamos, ao menos, assumir o nosso egocentrismo inerente a ser humano. A nossa necessidade de ser, de ser tudo, de ser o centro de tudo. Preservamo-nos, apesar de tudo, e vamos desaprendendo uma inocência infantil que nos deixava, enfim, vulneráveis às armadilhas de viver: ao amor, à entrega, ao compromisso, à responsabilidade. E a vida deixa de ter piada, porque complicamos as coisas que à partida seriam simples. O amor, no seu estado puro, é simples. Mas nós não aguentamos. Não aguentamos, porque complicamos. Não nos basta sentir, temos que explicar, temos que sobreviver, que decidir que o amor não chega, que já não somos crianças, que o mundo não é um lugar para crianças.

Enquanto eu for uma criança o mundo há-de ter que ter um espaço para mim, dê lá por onde der.

sexta-feira, julho 16, 2010

\m/_



Queens of the Stone Age - In My Head

quarta-feira, julho 14, 2010

Linoleum and Love

They were older then, like their kitchen floor,
linoleum and love worn together more
by each treading heart. They were never sure:
had they found happiness, or simply a way to endure?

My grandfather’s faithfulness was tough and taciturn.
Builder and fisherman, he did not learn
patience, except for fish. He’s hook his fingers in the air,
alive with cigarettes, and catch its burning as ashes in his hair.

His eyes were full of stories we never dared
disbelieve. Looking back, I think he cared,
at least as best he could,
his hands hard with working over water and wood.

Every time we visited, my grandmother gave
us scraps. “For the dogs,” she’d say.
Staying in love; knowing how to save,
make a little go a long way.

Such a brave economy of emotion.
it was the best lesson my grandmother taught,
something we might lean on,
knowing how she’d fought

her way into believing. Her rough
knuckled rosary, her tea-towel with its thin-skinned pride,
had to be, for her, hope enough
until at last: a knocking at the door, a veil drawn aside.


Noel Rowe, Next to Nothing, Vagabond Press, Sydney, 2004

sábado, julho 10, 2010

cede-se

vida. a quem quer que seja que a queira vir buscar.

segunda-feira, junho 14, 2010

luminária

gostava de agradecer a uma pessoa por estar assim na minha vida, sem acabar por expôr nada de mais, sem dizer nomes nem nada dessas coisas. fazê-lo publicamente, onde mais pessoas leiam e saibam que és o melhor do mundo. com toda a lamechice e pinderiquice possíveis.

domingo, junho 13, 2010

domingo, maio 23, 2010

para quê ir ao Rock In Rio,

se se mora em Chelas e se ouvem todos os concertos a partir de casa?

sábado, maio 15, 2010

Google Earth

The poet’s eye, in fine frenzy rolling,
Doth glance from heaven to earth, from earth to heaven.
Theseus from A Midsummer Night’s Dream (Act V, Scene 1) by William Shakespeare


We started in Africa, the world at our fingertips,
dropped in on your house in Zimbabwe; threading
our way north out of Harare into the suburbs,
magnifying the streets—the forms of things unknown,
till we spotted your mum’s white Mercedes parked
in the driveway; seeming—more strange than true,
the three of us huddled round a monitor in Streatham,
you pointed out the swimming pool and stables.
We whizzed out, looking down on our blue planet,
then like gods—zoomed in towards Ireland—
taking the road west from Cork to Kinsale,
following the Bandon river through Innishannon,
turning off and leapfrogging over farms
to find our home framed in fields of barley;
enlarged the display to see our sycamore’s leaves
waving back. Then with the touch of a button,
we were smack bang in Central London,
tracing our footsteps earlier in the day, walking
the wobbly bridge between St Paul’s and Tate Modern;
the London Eye staring majestically over the Thames.
South through Brixton into Streatham—
one sees more devils than vast hell can hold
the blank expressions of millions of roofs gazing
squarely up at us, while we made our way down
the avenue, as if we were trying to sneak up
on ourselves; till there we were right outside the door:
the lunatic, the lover and the poet—peeping through
the computer screen like a window to our souls.


Adam Wyeth in Landing Places: Immigrant Poets in Ireland, Dedalus Press, Dublin, 2010