sexta-feira, maio 11, 2012

coisa mais ao jeito de blog a sério

Ontem houve um senhor do Senegal que, depois de percorrer todo o espaço onde me encontrava, tentando vender produtos "típicos" aos veraneantes da noite lisboeta, nas esplanadas do Holmes Place, sitas na Avenida da Liberdade, e sendo muito mal sucedido, decidiu que me devia simplesmente meter uma no pulso esquerdo e pedir-me um euro. Uma vez que eu não tinha um euro, o cavalheiro fez-me só um "fixe", com seu polegar assertivamente erguido na mão cerrada, esboçando um sorriso e dando a informação de "não há problema, eu dou-te isso, é do Senegal." Portanto, tenho, hoje, mais uma pulseira. Que é do Senegal. E é feia. Mas representa qualquer coisa e, por isso mesmo, estimo-a. Olho para ela e ainda me alegro um bocadinho, por saber que, mesmo que toda a gente me odeie e me ache doente e disfuncional, há sempre pessoas que procuram para lá da minha antipatia e atitude anti-social (ex.: a música estava alta demais, e consistia em batidas electrónicas e remixes, "coisas felizes e luminosas, para se dançar", e havia demasiada gente, portanto, pus os meus auscultadores anti-ruído externo, liguei o leitor de mp3 nuns Sonic Youth e sentei-me sozinho numa mesa, não indo dançar, não indo saltar, não indo "conviver" nem rir nem piscar o olho nem tentar "conhecer" pessoas).
As meninas interessantes da faculdade podem não querer saber de mim para nada, porque engordei, com a idade, porque não me penteio, porque tenho barba, porque não tomo drogas, porque não toco em nenhuma banda indie, porque não faço desporto e abomino quase toda a gente que o faz, porque não sou um animal social com mais de 50000 contactos em redes sociais ou porque não cumprimento toda a gente que conheço, de os ver. Mas, apesar de tudo, ainda há senhores que, vivendo no limiar ou para lá do limiar dos padrões estúpidos do social, me percebem e vêem que eu valho a pena. Apertam-me a mão de forma sincera. Olham-me nos olhos. Dizem-me coisas com os olhos. Dão-me carinho com os olhos e sabem que eu sou uma das melhores pessoas do mundo. Apesar de tudo, as pessoas de quem nunca ninguém gosta, por "este" ou "aquele" motivo, percebem que há "qualquer coisa" em mim e não fogem. E, apesar de tudo, em certos - cada vez menos, é claro, mas... - sítios, em determinadas ocasiões, ler e ouvir música e fumar e beber de cabeça baixa, não ligando muito ao que se passa em torno (ou dando a entender que não, quando, na verdade, vejo e apercebo-me e observo tudo, ao pormenor), ainda vai chegando para que algumas pessoas desencantem dentro de si um encanto, ainda que pequenino, às vezes, mas um encanto, ainda assim, por mim.
Não desisto, embora doa. Assumi-me assim, e assumo-o até ao dia em que deixar de o ser, se algum dia o deixar de ser. Só sou. Sou. Muito. Intensamente. Sempre. Sem desistir, sem desesperar, sem deixar de esperar activamente uma coisa de que preciso. E sei (sei!) que querer amor, querer dar amor e receber amor e viver de amor não é doente nem doentio. É bonito. E faz bem ao que somos e não é físico e externo. E ao que é físico e externo, também.

terça-feira, abril 24, 2012

anúncio

perdoem-me aqueles para quem isto é uma traição à imagem fiel que fazem de mim - e que deixei que fizessem, que quis que fizessem durante tantos anos -, mas há coisas que mudam. apesar de tudo, há coisas que mudam, senão não se sobrevive.
tenho ainda um espaço de vida muito curto - uma deslocação no espaço muito curta, ocupa pouco espaço no tempo - mas estou demasiado enfraquecido. há quem se salvaguarde antes e não viva nada, depois. eu vou vivendo, mas, como não tomo as precauções que seriam necessárias, ao princípio, tenho de as tomar no fim. não se assustem, aqueles que me tomam pelo "eterno apaixonado", que fica anos e anos a sofrer pela mulher que amou. isso ainda é o que se passa. há é outra coisa que se passa, por cima disso, por cima do essencial. antes de mais dá-se que no pouquíssimo espaço de tempo que a minha vida tem, toda a sua história podia ser contada através de sofrimento por mulheres. e, como é sabido, todas as pessoas atingem o seu ponto de saturação. o meu é este. foi este, há uns tempos atrás. claro que continuo a sofrer e a angustiar-me por causa das últimas mulheres que amo/amei. claro. mas mais vale fingir que respeito as suas decisões - a meu ver, estúpidas e mesquinhas - de me deixarem, de me abandonarem. que posso eu fazer, senão "respeitar" isso? "aceitar" isso? não tenho propriamente palavra a dizer, não sou, nunca quis ser, nunca sequer me propus ser dono de ninguém. é a escolha de uma das partes, a parte que decide, que escolhe - a escolha nunca me coube nem cabe a mim, é um facto a que já me habituei há anos. respeito, finjo que respeito, aceito, que remédio, as suas decisões. e obrigo-me a sentir aliviado, "livre", sem o "peso" de vários factores. e, depois, tento enganar e vou conseguindo enganar o meu coração doente e deficiente com outras pessoas, com as quais isto nunca vai dar em nada, mas ao menos dá para ir tendo umas dorezitas mais pequenas, uns encantos mais pequenos, com que distrair o vazio do amor.
chamem-me nomes, se acharem que é isso que mereço. isto continua igual, só tem um mecanismo de salvaguarda a operar à superfície.

segunda-feira, abril 23, 2012

cê cedilhado

sobretudo não deixar de te amar, porque não dá. diz-se muitas vezes que "quando isto é a sério, não dá para desligar" e nós, que não lidamos bem com frases feitas, ficamos irritados, pensamos imediatamente que talvez até dê, tem de dar, caramba! mas não dá, nunca dá. podes afastar-te, se achas - se sentes, acima de tudo - que é isso que deves fazer, que é isso que devemos fazer. onde quer que estejamos, por mais longe que fiquemos, ao menos aqui vou dizendo que gosto mais de ti, hoje, do que ontem. aqui, querida, posso-te chamar de "meu amor". o que guardas, o que tens, o que dás só por seres "assim", só por seres isso tudo, só por seres a [inserir nome], que és, é imenso, é indizível. e amo-te, lamentavelmente, ou não. há dias em que não, sabes? há dias em que vale a pena amar-te só porque sim.

terça-feira, abril 17, 2012

lagostim

(tudo faz tanto ruído, em certas alturas, era melhor que se resumisse a essência das pessoas a qualquer coisa como um casaco, estar aqui sozinho, nunca ter conhecido outra forma de estar, toda a gente ter sido gatos, cães, periquitos, um cágado. não me doer a cabeça, não me doer o coração, poder comprar gelados e bolos em pastelarias desertas, muitos milénios depois de toda a gente ter desaparecido. não ter tido o convívio com o roncar dos aparelhos de ar-condicionado, com os olhares dos outros a não me deixarem chorar, sempre aquela peninha, aquela compaixão, mas sem nunca me virem abraçar, sem nunca me oferecerem um cigarro, e assim.)

segunda-feira, abril 16, 2012

s

(tudo devia ser tão fácil. pedem-nos dinheiro, pedem-nos comportamentos sociais, uma consciência, uns valores, aqui e ali. e complicamos tudo, e, sobretudo, angustia-me ainda mais que quase toda a gente se vá contentando com a "segurança", em vez de procurar, de facto, a felicidade, porque a felicidade pressupõe uma exposição e uma fragilidade.)

não te vás embora, pode ser?

sexta-feira, abril 06, 2012

m

Sinto, por vezes, que devia sentir a tua falta e, nessas ocasiões, sinto-a. Não é que goste mais de quem quer que seja de quem esteja a gostar, agora (a amar, é o verbo acertado), do que gostei (amei, é o verbo certo) de ti. É só que complicámos tanto as coisas que, infelizmente, em certas alturas nem sei bem o que foi que tivémos. Gosto de pensar que foi bom, mesmo esta coisa mais para o final, que se arrastou tanto tempo (e a culpa de não o ter sabido ver mais cedo foi inteiramente minha), em que provavelmente te amava sem que ainda me amasses, já. Ou amavas, sim, de uma maneira própria que, no meu egoísmo, não consegui ou soube ver.
Não adianta de nada lamentar as coisas, dizem-me, "não há volta a dar", "estás melhor assim". Todos os dias tento convencer-me disso. Que se trata de um desígnio universal, um alinhamento cósmico, uma espécie de destino. Fui feliz contigo. Por isso arrependo-me. Todas as coisas bonitas que te disse eram verdade de todas as vezes em que tas disse. Tens música e poesia em ti. És linda. 
A sério, deixem-me arrepender disto... por favor. Poupem-me às considerações muito correctas da racionalidade. Eu amei uma pessoa que tocava violino e cantava. Que me comprava xaropes e comprimidos quando eu adoecia. Que me fazia companhia em casa, numa casa que já nem sequer existe, para mim. Mas foi a minha casa durante dois anos e pouco, albergou-me a mim e a um amor tantas vezes doentio, doente, mas um amor.
Há dias em que chove e me canso de ser assim, julgo que seria melhor livrar-me do amor de uma vez por todas, não conhecer mais mulheres, não falar mais com mulheres, não as deixar aparecer na minha vida e fazerem, sem quererem, sem o saberem, com que me apaixone por elas. Ainda sinto que tenho tempo e que há pessoas que valem a pena o meu investimento emocional, mas cada dia que passa a minha paciência decresce, inversamente proporcional ao que sinto em relação ao tempo que tenho para as pessoas que valem a pena.
Ainda sinto que tenho tempo e por mais que queira que isto não fosse assim, há sempre uma mulher a seguir a outra, que me prende e a quem preciso de me prender e desperdiçar mais uns meses antes de ponderar seriamente desistir disto tudo, ou até (que às vezes calha) essa pessoa decidir ficar comigo durante uns tempos, nunca correspondentes ao sempre que eu queria de todas as vezes.

quinta-feira, março 01, 2012

comunicado

preciso de um grupo de pessoas que queiram fazer qualquer coisa. que existam e que insistam, comigo, em qualquer coisa. porque isto é cansativo. o estado das coisas. e uma pessoa não aguenta o tempo todo cansada. preciso de me mexer. de criar coisas. ter um grupo que crie coisas. que fale de poesia e de ficção "pós-moderna", contemporânea, avant-pop, super pop, sonasol, fairy, omo, skip, chamemos-lhe o que quisermos. que, por favor, tente sair dos moldes. que saia para tascas e arrote alto e preze os seus amigos pedreiros e mecânicos que choram, à noite, como qualquer destes intelectuais. que não se rale em se "mexer pelos círculos" e "fazer connections" para vergar o rabinho, baixar as cuecas perante os "senhores que interessam" (mesmo que os senhores que interessam sejam tão conhecidos quanto eu, em Badajoz, quando vou comprar caramelos). vamos fazer sessões de poesia e música for art's sake alone, sem os usuais motivos ulteriores de engatar pessoas. abraçar a marginalidade a que estamos votados (e auto-votados, também). eu tenho planos. planos para nós. e quem vier será bem-vindo.

lentamente, ainda sem existirmos, estamos a mover-nos.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

ainda mais uma pequena hecatombe equivalente a toda uma guerra mundial, dentro do espaço físico ainda viável de mim

Sempre que possível, não leiam traduções. Por favor, se me estimam - e quem me conhece e gosta de mim e preza minimamente a minha opinião - não leiam traduções. Não leiam traduções sobretudo de poesia. Mas não leiam traduções, ainda que de prosa, porque felizmente já estamos aqui todos depois da Virginia Woolf, e as distinções entre prosa e poesia vão-se tornando cada vez mais ténues, ao ponto de se entretocarem e complementarem.
Os métodos poéticos de hoje em dia são velhos. A poesia, em Portugal, pelo menos, não tem sabido avançar por aí além. Parou-se num passado recente, sim, recente, mas, nesta época, o passado recente já não apresenta fórmulas que saibam a novo. Não se procura uma nova linguagem nem um novo "qualquer-coisa", aliás, para se dizer. E os tradutores, mesmo que poetas, mesmo que "poetas do seu poeta", trazem coisas para a nossa língua que até podem ser boas, no original, mas, no português-das-traduções, ficam pesadas e com um ar bolorento, emproado, empoeirado. Esquecem que a linguagem a usar já não deve - nem pode - ser uma linguagem erudita, elevada, acríbica, "clássica". É a linguagem de todos os dias, de um quotidiano real. E não é isso que se vê. 
Portanto, a menos que não dominem a língua original, recusem-se a ler traduções. Uma das coisas boas (das raras coisas boas, se se quiser) da massificação e da globalização é o surgimento de lojas online, através das quais se podem encomendar livros mais baratos do que se comprariam nas lojas físicas do nosso país (e de outros). Para se comprarem autores "luso-falante-escreventes", continuo a recomendar vivamente que se mantenha viva a economia das livrarias e alfarrabistas nacionais (eu, que sou pouco ou nada nacionalista e/ou patriótico) mas, para se adquirir um livro de um autor estrangeiro, se se fala a língua desse, encomende-se na internet. Não comprem mais traduções, por favor. Evitem-nas a todo o custo, a menos que se trate de uma impossíbilidade. Se comprarem traduções, ao menos que seja uma edição bilingue, para terem acesso, no mínimo, à "coisa" original.
Gabem os vossos amigos que eventualmente façam traduções, mesmo que mintam (e, geralmente, mentimos ao fazê-lo, reconheçamos), porque é "um bom exercício" e "é necessário que alguém o faça". Mas, aconselho, se tiverem outro tipo de amizade e intimidade com eles, digam-lhes que, se é para traduzir, tentem ser mais "poéticos", que busquem a poeti-cidade que nos é exigida branda mas indelevelmente nos dias que correm. E não leiam traduções. Por favor, não leiam traduções.
Caso encontrarem boas traduções de algum autor anglo-americano, pelo menos, digam-me. Façam-me esse obséquio. Agradeço imenso. Que, até hoje, tirando livros técnicos e romances de "estrutura e fórmula clássicas", não encontrei nada, traduzido, que me tivesse dado prazer.

N.B.: lembrei-me de um exemplo de uma boa tradução: O Inominável, de Beckett, editado pela Assírio & Alvim. E haverá outras, decerto. Mas tenho encontrado tanta mais má tradução, que nem sequer dá para brincar com isso.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

do pânque róque (infeliz alusão ao "movimento" FlorCaveira)

fala-se por aí da Crise. e, até ver, a crise existe. uns previram-na, outros, não. mas é uma crise. não só económica. é uma crise de humanidade, sobretudo. é uma crise, passe o lugar comum, de valores. atente-se: não quero fazer deste texto um texto "moralista" e com vertente de conselho e admoestação. há uma crise de valores, ponto final. a acrescentar a todas as outras. a uma económica, sim, talvez.
a juntar a isto, não há uma única intervenção, relativa a isso, no mundo "das artes". corrijo: no meio literário vão-se fazendo coisas. mesmo que  não pareça, vão-se fazendo coisas, não ficamos calados. falamos é baixo demais, não por culpa nossa, simplesmente porque toda a gente escreve mas ninguém lê. toda a gente publica, mas os livros não se vendem. são só vozes atrás de vozes, com os pulmões a dizerem coisas, fechados dentro dos livros, que ficam só a amontoar-se nas estantes das livrarias e, com o passar do tempo, em armazéns e caixotes. as pessoas "não têm tempo para ler". respeito isso. ou, melhor, não respeito isso, mas não há nada que possa fazer, para o alterar. portanto, não espero que essa mudança social venha da literatura.
no cinema, coisa para a qual ainda se vai tendo tempo e, quando não dinheiro, recorre-se à internet e obtém-se à borla o/s filme/s que se pretende ver, o panorama é pior. os filmes norte-americanos são, de ano para ano, piores. sempre piores. explosões. mundos de fantasia e desenhos animados gerados a computador para miúdos e graúdos, todos a saber exactamente ao mesmo. perseguições de veículos armados-ou-não. balas. robots. animais baseados em mitologia. adaptações ainda piores de livros já de si maus. mas, pronto. há o cinema europeu. há "sempre o cinema europeu". intelectual e "poético", a "fazer pensar" (sempre esta porra deste argumento, "o cinema tem de fazer pensar", "gosto de um filme que faça pensar"), mas, fora esse exercício estético - por demasiadas vezes cansativo ao mesmo nível que é estético e "poético" e "faz pensar" - em nada melhores que os blockbusters repetidos e repetitivos dos Estados Unidos. só a suposta "representatividade do real", mas sem nada de realmente real, pelo menos no que à minha vida, em concreto, diz respeito.
resta-nos, pois, a música. música toda a gente ouve. e é este o maior problema. a música podia ser (arrisco-me a dizer que deveria ser) a voz necessária. mas a música já não é nada. são uns meninos e meninas vestidos com riscas horizontais (brancas e vermelhas, brancas e pretas, brancas e lilás), óculos de massa e ténis All-Star no fim de umas calças que, de tão justas, provocarão decerto impotência aos elementos masculinos, que escrevem umas coisitas animadas que soam todas ao mesmo, mas que se colocam sob o rótulo de "indie-qualquer-coisa". e estas musiquinhas são tão vazias, tão cheias de nada, só uma "distracção" da vida. uma forma de caminhar na rua a sentir-se que se tem um certo estilo. que se conhece coisas que mais ninguém conhece. só porque sim. porque convém individualizarmos, em vez de consciencializarmos e tornarmos uma coisa num projecto de todos.
às vezes falo do punk a pessoas e dizem-me que o punk está morto. usam-se t-shirts dos Ramones e, acima de tudo, dos Sex Pistols, mas só porque fica bem. conhecem-se umas faixas de uns e de outros. e diz-se que o punk está morto. que já não se faz punk. houve o "post-punk" e isso ditou o fim, o apocalipse do que era o punk. mas o punk está vivo e, arrisco-me a dizê-lo, caíndo nesta expressão sobejamente usada, nunca esteve tão vivo e a precisar tanto de ser ouvido e transmitido. porque, sim, apela à auto-marginalização, sim, são uns tipos com guitarras e a cantar mal umas musiquitas curtas com um, dois minutos, no máximo, mas ao menos há ali revolta. há ali qualquer coisa, mesmo que a letra consista em pouco mais que "Hey, little girl, I wanna be your boyfriend". há ali qualquer coisa que diz "isto está mal e nós propomos uma outra coisa, sem saber ao certo qual a solução, mas, por favor, ao menos tentemos qualquer coisa, qualquer, que seja".
ouçamos punk. já que não queremos comprar livros e os filmes são cada vez piores, ouçamos punk. todo o dia. até percebermos mais ou menos o que fazer com isto, que nos deram para as mãos, e não tem utilidade nenhuma. acabemos de vez com as musiquinhas "indie-folk" e "indietronica" e "indie rock" e "indie merda" que se têm estado a fazer, vazias de tudo, menos de uma produção plástica e de plástico, para que uns senhores ganhem dinheiro à conta disso. ouçamos punk e seus derivados. ouçamos, pelo menos, uma coisa "não-punk-que-conserve-o-espírito-do-punk".

punk is dead. long live punk rock.

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

primavera antecipada

devia só rebolar. só dormir. sofrer a dormir porque amo x ou y ou, vá, d, mas nem x nem y nem, sobretudo, d me amam de volta. dar amor é uma chatice. é aborrecido. dar, seja o que for, é aborrecido. mas dar amor ainda é mais. justificam-se (bem) com a falta de "cliques". nunca provoco "cliques" em ninguém. não sou "apaixonável". só me lembro de uma vez, uma única vez, em que não fui eu o indivíduo a abordar outrém, primeiro, porque essa pessoa me fez o "clique" emocional. e deixei-me "clicar" depois de ter feito "clicar" primeiro. oferece-se amor em vão mas a maior parte das vezes as pessoas nem sequer percebem que pode mesmo ser amor. é rápido, é assustadoramente rápido. conheço pessoas em dez minutos e apaixono-me porque o meu coração resvala em direcção a lábios, a mãos, a um cheiro. noto os olhares, a inteligência dos olhares, o gesticular das mãos, o interesse das mãos a trabalhar o espaço entre, o vácuo entre, as coisas invisíveis, afastando-as, chegando-as para o lado, a movimentar o ar, a fazer vento com cheiro de pele e de boca. apaixono-me e sei que é amor. e não se desama depois uma pessoa só porque sim. porque "foi rápido, foi vertiginoso e, nessas condições, meu caro, não é possível que seja amor".

lamentavelmente, é.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

que-redo

tenho coisas para dizer. sempre. mas são sempre as mesmas e hoje nem sequer sei bem no que consistem. não me apetece escrever amálgamas, gostava de ter a coerência e a coordenação necessárias a e para escrever um texto mais ou menos académico. se se puder ser um demiurgo a organizar o caos aparente e, até prova em contrário, fáctico, factual, verídico destas ideias, e extrair delas um miolo central, um centro de ordenação e sentido, que se seja, que se consiga, que se proceda a essa tarefa hercúlea. deixo isso para os filólogos a sério, para os pensadores, para os teóricos. a minha preocupação é só a de escrever, com mais ou menos teoria a substanciar isso, mas escrever. procurar o deleite oferecido e a oferecer a quem lê. não me interessa a economia, mesmo que me bata à porta, nem me interessa ler os poemas tão impregnados do sabor a velho dos meus pares que se afirmam poetas e escritores. cada vez mais concluo que não preciso de ler muito, para escrever. que fui perdendo capacidades e liberdades, quando me comecei a auto-espartilhar com as teorias, com as comparações... era mais feliz quando lia um poema de Eugénio de Andrade e sentia "isto não é mau, mas também não é nada de especial, nota-se aqui esforço em demasia". hoje tenho de ler Eugénio de Andrade e obrigar-me a pensar "este homem foi considerado um bom poeta. tem a sua qualidade, embora esteticamente não fale à minha sensibilidade".
passei demasiado tempo com livros do Gogol na mala. do Dostoiévski. e tentei, juro, por certo que juro que tentei gostar. são clássicos. são fundamentos, nomes basilares e eu estou num curso, para o bem e para o mal, de filologia. tenho de conhecer os clássicos. saber da redenção do Crime e Castigo. tenho de preferir A Metamorfose, de Kafka, a'O Processo, do mesmo autor, porque a temática d'A Metamorfose é "isto" e "aquilo". tenho de interiorizar e obter a certeza irrefutável de que Guerra e Paz, de Tolstoi, é o "melhor romance de sempre". e tentei. tentei pôr para trás das costas os factos inegáveis de que nenhuma dessas obras me falou à alma. convenci-me de que "o problema é meu, que sou burro e lento de compreensão". mas agora deixei-me disso. quero concentrar-me no que importa. comprar e ler mais livros do Bukowski, que sabe realmente falar a minha língua, dentro de tudo aquilo que não me é, mas acaba por conseguir ser. ler mais Pynchon. mais Burroughs. sair deste pensamentozinho intelectual europeu que me rodeia, num apanágio de bichonas-nem-sequer-gay de perna cruzada na esplanada do CCB, tão sempre e só cada vez mais anti-americano, e ostentar o Love is a Dog from Hell, nas tascas, nos cafés de esquina, ler sem pejo e sem medo de ser criticado na minha repetição de "andas sempre com isso atrás?" o The Crying of Lot 49 e o Naked Lunch. não me importar muito se o cummings é considerado "menor", quando mete o mofo dos nossos poetas contemporâneos, todos a imitar o Ruy Belo e o Eugénio de Andrade e a Sophia de Mello Breyner Andresen a um cantinho, resumidos à sua insignificância de projectos imitacionais que sabem a coisa velha na boca.
é isto que vai ficar. tem de ser isto que vai ficar. a marginalidade do que se faz nos blogs, que já quase tão poucos lêem, sequer, a poesia "de garagem", dos sem dinheiro, dos que não podem voltar para casa porque não têm massa nem atum nem ovos para comer. dos que continuem a escrever só porque sim, sempre a repetir paixões platónicas de uma infantilidade prolongada, que não se ralam com o que disse o Adorno (ou fingem que não se ralam), sempre a dizer "bichos" "insectos" "decadência" "comboios" "frutos" "colo". é essa repetição que fica. não são os senhores que falam de palimpsestos e de sinédoques e que procuram uma palavra durante seis meses, com que completar os seus poemazinhos medíocres.

com toda a falta de humildade que me é possível, sou eu quem vai ficar. sou eu quem vale a pena ler. no meio da minha desorganização mental cada dia mais frequente, mais insistente, sou eu quem vale mais do que os vestígios miméticos de Mários Cesariny, de Ruys Belo, de Al Bertos, de Eugénios de Andrade, de Herbertos Helder que por aí proliferam.

domingo, janeiro 29, 2012

(o costume)

É provavelmente o que me ouviste e leste e imaginaste dizer durante este tempo todo, este pouco tempo que soube a tanto, talvez a demasiado, às vezes, mas desculpa. Não me parece que acredites na desculpa, as pessoas não mudam assim, se calhar as pessoas nunca mudam, é verdade, e não é reconhecer os erros que me faz apagá-los ou sequer penitenciar-me deles, mas desculpa, a sério.
Já fui deixando de perceber se a culpa existe ou, a existir, de quem é. Se existe, é dos dois, é o que nos diz o senso-comum, preenchido das banalidades e das convenções sociais que nos permitem continuar a existir. A lógica pequena da vida, a que lhe tentamos atribuir em tudo o que fazemos, em todo o caos e acaso e intenções dum lado versus as intenções do outro diz-nos que a culpa é repartida. Talvez nem se justifique falar em culpa, mas se peço des-culpa é porque assumo a minha culpa. E assumo-a, assumo todas as imbecilidades que fiz e arrependo-me delas. Publicamente peço-te perdão pelas atitudes asquerosas e guiadas pela ira e pelo despeito, que tomei, nomeadamente neste mesmo blog, com um post cravejado de mentiras. Não importa o seu propósito, que existia, mas os fins não justificam os meios, portanto, espero que me perdoes desse acto estúpido e hediondo de expôr uma vida íntima que nem sequer foi a tua/nossa. A raiva por detrás disso, o despeito por detrás disso, a mágoa por detrás disso, nenhuma destas coisas serve como justificação. Aquele post não deveria sequer ter sido pensado, quanto mais publicado.
Guardo coisas boas, do que fomos. Deste-me mais do que pedi, simplesmente não soubémos corresponder ao que um e outro precisávamos. Pelo menos é a resposta mais simples e socialmente correcta, logo, fico-me por ela. E é a verdade.
Isto custa-me, e não por nenhuma ofensa que me tenhas feito, não por me teres ou não tratado mal (ou "menos bem"), não por não teres sabido corresponder ao que quer que seja... custa-me porque te amei imenso, mostrei-te o meu amor todo e nunca te escondi nada, dei-te tudo de mim, ainda que às vezes talvez não o saiba ter mostrado claramente. A angústia disso, de ter de criar as estruturas necessárias, se bem que falsas, de que já não te quero ou de que já não "gosto de ti", é que me faz depois ter atitudes imbecis de escrever textos ofensivos que nem tu nem ninguém mereceriam. Mereces que te deseje bem, que te queira bem, e que te deixe seguir a tua vida em paz, saúde e felicidade. Mereces que te guarde para sempre num lugar especial no meu coração e na minha alma, e acredita que ocupas esse espaço.
É melhor que nos afastemos, mas sabe que o que vivemos vai ser sempre muito importante para mim. És uma pessoa linda e maravilhosa, e sei que vais encontrar alguém que te saiba ajudar a ser mais feliz. Sei que vais ficar bem, porque mereces ficar bem.
Lamento ter-te feito perder tanto tempo e tanta saúde mental. Genuinamente. Desejo-te tudo de bom, do fundo do coração. E espero que daqui a uns tempos consigas mesmo acreditar na verdade disto tudo. Desculpa também não ter sabido ser mais e melhor, como precisavas.
Um abraço. Sabe um abraço. Entende este abraço. Se possível, lembra-nos como uma coisa mais boa do que má.

domingo, janeiro 22, 2012

sevícia

Envelhecer é uma coisa triste. Muito triste. A vida vai-nos destruindo aos poucos, e lembro-me sempre das palavras de uma amiga - julgo que parafraseando alguém - em relação àquela teoria tão repetida (como tantas dessas teorias que "ajudam", repetidas ao longo de séculos, milénios, talvez, até, só para que acreditemos nelas), de que se aprende com os erros: "if you learn from a mistake then it's not one". Subscrevo. Essa ideia de que as coisas más nos vão tornando mais fortes não passa de um mito que dá jeito, uma ficção, entre todas as ficções, de que precisamos, com vista à sobrevivência. A saúde emocional, como a saúde mental, não distam tanto assim da saúde física; ou seja, sempre que parto um braço, ele não vai ficar mais forte, quando recuperar. Fica fragilizado. Vai passar a doer com as mudanças de temperatura. Nunca mais vai ter a destreza e a força física que teve, em tempos. E até posso resguardá-lo mais, porque "aprendi com o erro" e terei mais cuidado com ele, mas o mal está feito, e o braço nunca recuperará. A mesma coisa se passa com a saúde emocional. Se sofro, se me dói, se me corrói a angústia e o desgosto e a falta de amor e de encanto, o mal está feito. Ganhei um braço partido na alma e esse braço está arruinado para sempre. Às vezes a alma tem de reaprender a escrever, porque o braço fica tão fragilizado que é necessária fisioterapia anímica. E, tal como num braço físico que se parte, por mais cuidado que se tenha, no recobro, para que não se volte a partir, eventualmente tem de se recomeçar a usá-lo e o quotidiano volta a trazer-nos a necessidade de o usar, com as dores novas, é certo, mas de o usar como sempre o usámos. Um braço é um braço, é necessário, é essencial, tem uma função, como braço, e por mais precauções que se tomem, o seu uso, a sua função primária e instintiva fazem sempre com que corra riscos. Uma alma corre sempre riscos.
Tenho conhecido pessoas que se fecham numa cobardia de não viver porque "aprenderam com os erros" e, portanto, nunca se dão a ninguém. Uma vez, num passado qualquer, magoaram-se. Magoaram isto a que tenho estado a chamar de alma, mas que pode ter o nome que se lhe quiser dar. Partiram-na. E ela recupera, como tudo, em nós, recupera, mesmo que leve muito tempo. Por vezes, esse trabalho de recuperação é tanto e tão exigente, que quase nos assustamos em usar a alma como dantes. De sermos como antes. É natural que muita gente ligue este mecanismo quase mecânico, muito "não-orgânico" de auto-defesa e simplesmente deixem de se apaixonar, de acreditar (porque "acreditar em certas coisas, como o amor ou os «para sempres» é coisa infantil e de pessoa que não quer crescer e enfrentar a vida")... natural, porque o compreendo, porque entendo porque o façam. É compreensível, enfim, que o façam. Não sei se realmente tão natural assim.
Exige coragem perceber que o braço partido da alma pode estar fragilizado, mas que temos de continuar a usá-lo como braço. Porque a alma parte-se, com certeza, mas não se nos é amputada. O que há é quem prefira convencer-se disso. Exige coragem, muita, mesmo, reeducar a alma para o amor, para o encanto, para os "para sempres", mesmo que já se tenha batido com a testa anímica tantas vezes contra paredes (autênticas muralhas) a circundar corações alheios. Fingir que se "aprende com os erros" e fechar-se à vida, isso, sim, é coisa de crianças, ainda que não se veja crianças factuais a fazerem-no. Mas, pronto, fazendo a vontade a mim próprio, suponhamos que há uma infância para as almas, também.
Não me quero deixar envelhecer a achar que o amor não vale a pena, que nada da beleza e da arte e de nos encantarmos com alguém vale a pena... isso é para gente que desistiu de viver e nem se apercebeu.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

take two

em anos e anos nunca aprender a lidar com a solidão. eis a merda da resposta a isto tudo. cromossomas e genes e física, neutrões, protões, astros. foda-se. e o amor e os sorrisos? merda. ninguém entende a ciência da amizade, dos cafés, das conversas. e se isso pode ser explicado em duas frases pela psicologia, pela biologia, pela matemática aplicada ao caralho-que-a-foda, não pode ser explicado.
e a única resposta da arte em relação a isso é um pássaro. e um pássaro é bonito, mas para os cientistas não é uma resposta, é só outra coisa para ser estudada como uma pergunta.
portanto, a arte responde com uma pergunta em forma de pássaro. e isso é a melhor resposta ao acto de ir existindo, ao cliché pós-moderno de se ir sobrevivendo.
em anos amar a solidão e notá-la fazer sentido, "foda-se, a solidão faz sentido, os livros/os filmes/os discos/os animais são melhores que as pessoas!", mas nunca saber lidar com ela, nunca notar que não se sabe aguentá-la.
precisar de foder porque vai dar quase ao mesmo que amar, custando, ainda por cima, menos.

terça-feira, setembro 20, 2011

Dever/Haver



No próximo Sábado, pelas 18:30, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, Lisboa (na zona de Santos), lançamento do livro Dever/Haver, de João Silveira.

segunda-feira, setembro 05, 2011

convite!



No próximo Sábado, dia 10 de Setembro, será lançado o meu primeiro livro (excluindo a edição online de para um frigoríco e uma bateria de carro abandonados, ed. Lulu.com), intitulado O Comportamento das Paisagens, pelas edições Artefacto, no Palácio de Laguares (Campolide). O evento terá início às 18:30, contando com apresentação do Professor Doutor Fernando Pinto do Amaral, do editor Paulo Tavares e do autor (eu próprio), leitura de poemas por Cláudio Rodrigues, momentos musicais a cargo de Nelson Luis Ribeiro, no clarinete, e Tomás Quitério, no piano, e será também palco de uma exposição de Maria João Lopes Fernandes, ilustradora da capa do livro.
Uma vez que o lançamento do livro está incluído nas comemorações dos 126 anos da Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul (de quem a Artefacto é a vertente editorial), só as pessoas que apresentarem o convite colocado seguidamente poderão entrar de forma gratuita.

Convite a ser imprimido pelas pessoas interessadas e apresentado à entrada do evento, para entrada grátis. Clicando na imagem em thumbnail aqui presente, podem ter acesso à resolução original, mais adequada à impressão.

Agradeço, antes de mais, a todos os que estiverem interessados em ir, aos que possam deslocar-se, sim, mas também àqueles que, por variadas razões, gostariam de estar presentes e não podem. Sentirei o vosso apoio, carinho e amizade na mesma e terei, nalguns casos, livros para grande parte de vós.
Fica, pois, o convite genuino e fraterno a todos os que queiram e se possam deslocar para uma tarde de poesia e intimidade de palavras partilhadas, no Palácio de Laguares, Sábado, 10 de Setembro, pelas 18:30. Se puder contar com a vossa presença, teria ainda muito mais prazer e gosto, do que o que tenho, à partida. Este livro é, primeiramente, vosso. Não é propriedade minha, tirando no sentido autoral. Logo, faria todo o sentido que o lançamento se fizesse também pautar pela vossa companhia.

Um enorme abraço,

Pedro Tiago

quarta-feira, agosto 24, 2011

velhice mental, ou prudência? ah, porra...

É possível que esteja a ficar velho. Bem, é pelo menos possível que esteja a ficar chato, um bocadinho velho antes de tempo... tenho amigos mais velhos que eu que não são tão chatos, tão peremptórios, que prezam uma liberdade em tudo. E o que me irrita um bocado é que também já fui assim. Mas vou sendo cada vez menos, pronto. Não vale a pena discorrer sobre isso. A minha pessoa de hoje é assim, é isso, por mais que me irrite, que me aborreça. E que aborreça outros, que me rodeiam.
A verdade é que só há dias dei por um fenómeno musical recente em Portugal, uns tais de Amor Electro, que se apresentam como banda Pop, Alternativa, Electrónica e demais rótulos desses que se usam para referir a música, hoje em dia. Ora, os Amor Electro são um desses super-grupos do pop electro que se tem vindo a fazer em Portugal desde meados dos anos noventa, e em particular desde 2000, com bandas como os The Gift, os Mesa, os Donna Maria (cuja ex-vocalista, Marisa Pinto/Marisa Liz é a actual vocalista dos Amor Electro) e, em certa medida, os próprios Clã e projectos que deles saíram (Humanos, etc). Ouvindo Amor Electro ou qualquer uma destas outras bandas (quase de certeza que há mais, estas são apenas as de que me recordo) vai dar ao mesmo. O som é o mesmo, uma melodia envolta em batidas electrónicas, senhoras com vozes muito soul, muito fado, citando os mesmos exemplos estrangeiros (Air, Massive Attack, Portishead, etc), referindo sempre a mesma originalidade, sempre a mesma certeza absoluta de estarem a fazer "qualquer coisa diferente" no panorama musical português.
No myspace da banda Amor Electro alguém referia que o seu single, "Máquina", é uma música arrasadora, genial, que não cansa. Isto lembrou-me dos comentários idênticos a, por exemplo, singles dos Mesa ("Luz Vaga") ou dos próprios Donna Maria ("Quase Perfeito"). Ora, essas faixas, anos passados sobre elas, são coisas que analisamos com alguma distância como eventos que inundaram as rádios durante meses, que "não cansavam", que "eram geniais", que "nunca se tinha ouvido nada assim", mas que, com o passar do tempo, simplesmente desapareceram do ar e das lembranças do público. Há, com certeza, fãs dessas bandas que ouvem os cds, mas são uma minoria, porque o público-alvo desse tipo de música acaba por ser aquele género de pessoa que ouve uma musiquinha no carro, a caminho do emprego, ou num jantar de amigos, de volta de uns copos de qualquer coisa alcoólica, enquanto se fala de economia, de roupa, dos filhos ou da falta dos mesmos, da colega de trabalho que não devolveu uns óculos de sol emprestados, e por aí fora. Claro que, não sendo preclaro, não podendo prever o futuro, tudo isto não passam de conjecturas, da minha parte, e é possível que estes senhores fiquem para a história, façam uma pequena carreira. Sim, é possível, os já referidos The Gift, pais deste tipo de música, em Portugal, aí continuam, a lançar cds com cada vez mais valor de produção (embora não necessariamente qualidade), e os seus singles do passado são parte integrante de um repertório factual da música pop que ficou inscrita na história recente da memória musical. Mas, com toda a franqueza, não me parece. Porque os coloco ao mesmo nível dos outros, de Mesas e Donnas Marias e outros que tais. A questão da efemeridade da música pop já é largamente debatida por quem tem mais direito e propriedade para o fazer, do que eu, portanto, tentarei entrar por esse caminho o menos possível, sendo, contudo, óbvio que isso explicaria muita coisa a este respeito. Coisas que estavam em voga há uns seis, sete anos, já não são lembradas por ninguém, a menos que fizessem parte daquele lote de coisas próprias da nostalgia que, "de tão más, são boas". Até no dia-a-dia nos podemos aperceber disso, olhando para o agora. Os Deolinda, por exemplo, misturando também o fado com algum jazz e música tradicional, resultando num pop mais tradicional, onde o fado assume o papel principal, já tiveram o seu pico de popularidade e estão assumidamente a desvanecer. A seguir às manifs "À Rasca", que por aí grassaram, e que, até ver, não passaram de um fenómeno mediático que os media acarinharam e levaram ao colo até onde puderam (manifs, essas, que funcionaram sempre em torno do tema dos Deolinda, "Parva Que Sou"), a banda tem estado a desaparecer por entre os tecidos do tempo, para ficar, por exemplo (porque não?), na condição de projectos como os Rio Grande ou os mais recentes Cabeças no Ar.
É claro que as bandas que ouço, desde Belle Chase Hotel a Man Man, de Morphine a Sonic Youth, de Menomena a Dead Combo, podem nunca ficar para a história. Estão nas mesmas condições. Só que o público-alvo deles raramente foi algum. Eles quiseram/querem fazer a música que lhes apetece, tentando trazer algo de novo ao oásis de criação que o pós-modernismo nos oferece, com tantos limites abertos, que acaba por no-los fechar todos, também. E, convenhamos, os verdadeiros fãs destes grupos não se comportam como fãs casuais do pop electrónico português. Esse tipo de fãs limita-se a acompanhar os fenómenos, enquanto o verdadeiro apreciador de uma banda (coisa que julgo ser apenas possível se a qualidade da banda for boa) tem sempre em mente o trabalho discográfico ao longo dos anos, no seu todo. Para além disto, tenho a decência de saber gostar dos verdadeiros mestres consagrados da música erudita/clássica e do jazz, nomes que vão muito para além de hits de rádio e um ou outro jovenzinho a querer ser adulto que proclama "esta música é genial e não cansa nunca!"
Devo deixar que seja a história a julgar os Amor Electro, os Deolinda, os Mesa, os Donna Maria. Devo. Mas creio que o seu caminho irá, invariavelmente, desembocar nesse tecido temporal reservado às coisas que se esquecem. Que talvez se ouçam de vez em quando, passados uns anos, numa situação ocasional, sem entusiasmo e apenas uma ou duas vezes.
Para terminar, deixo só uma nota, em jeito de ironia, para quem o quiser entender assim, ou em jeito de afirmação verdadeira e sincera, para os que se quiserem manter zen e ingénuos, sem ofensas contra ninguém, que nada disto é para levar a sério. A contemporaneidade é uma velocidade constante e sempre maior, imparável, e pedir que se procure a qualidade, ao invés da quantidade célere e efémera dos dias de hoje, é apenas estúpido. Não sejam estúpidos, pois. Não façam caso. Gastem tempo com tudo o que não vale a pena.

segunda-feira, julho 11, 2011

why must itself up every of a park
anus stick some quote statue unquote to
prove that a hero equals any jerk
who was afraid to dare to answer "no"?
quote citizens unquote might otherwise
forget(to err is human;to forgive
divine)that if the quote state unquote says
"kill" killing is an act of christian love.
"Nothing" in 1944 AD
"can stand against the argument of mil
itary necessity"(generalissimo e)
and echo answers "there is no appeal
from reason"(freud)--you pays your money and
you doesn't take your choice. Ain't freedom grand



E.E. Cummings

quinta-feira, junho 30, 2011

Canal Q, ou "a necessidade de irmos contra a corrente só porque sim"

Este texto já andava para ser escrito há algum tempo, mas confesso que não tenho dedicado as minhas férias à escrita, lamentavelmente, e muito menos à escrita no que aos blogs diz respeito, particularmente este blog, em concreto. Mas vai ser agora.
Existe um canal, exclusivo do meo, serviço de televisão por cabo que subscrevo, que dá pelo nome minimalista de "Q". É um canal das Produções Fictícias (PF) e, como tal, apresenta-se como um canal de humor e de estilo de vida "alternativo", ou, pelo menos, aquilo que hoje em dia vai passando como alternativo. Não é que não ache alguma piada aos formatos das PF, não é que não aprecie o tipo de humor tantas vezes deadpan e nonsense pelo qual eles se parecem reger, ou, vá, no mínimo, pela ironia e sarcasmo latentes em quase tudo o que fazem. Mas, como é sabido, tudo o que é demais (e de mais), enjoa. E as PF andam pelos meios televisivos como se fossem a única companhia a criar humor, neste momento, em Portugal. Quase tudo o que se vê é PF. Os tão acarinhados Gato Fedorento (mesmo que eu não entenda o porquê de tanto entusiasmo em torno desses cavalheiros, nunca me agradaram por aí além) são PF. O grupinho de Bruno Nogueira e João Quadros e etc. e tal é PF. Os guiões do Herman José são das PF (talvez daí a genuína perda de piada do senhor, de uns anos a esta parte? Só um palpite, digo eu, caro Herman). As PF estão, para o humor, como o Acontece estava, para a cultura em TV, há uns anos atrás. E, se alguém sequer se lembra, o fim do programa deu-se, entre outras razões, porque monopolizava tudo o que era cultura, não dando espaços e oportunidades a quaisquer outras plataformas. Claro que se poderá (e deverá) argumentar que, depois do Acontece, as coisas não melhoraram muito. É verdade. Diria mesmo que não melhoraram nada. Agora, bem vistas as coisas, nem sequer há um programa de cultura, per se, na televisão. Mas, pelo menos, sacudiu-se aquele mofo. E, sim, é provável que não haja mais ninguém disponível para fazer humor em TV e rádio e na internet, como as PF se disponibilizam e prontificam a fazer. Poder-me-ão, ainda, dizer que os tipos do GANA/CENA/Pomada Indiana/etc., se venderam às PF (João Moreira surge, diversas vezes, vestido de galináceo, na programação mais recente do Canal Q, por exemplo), e que eles eram a única alternativa verdadeira a esse gigante do humor e dos guiões que se querem humorísticos para tudo relacionado com os media. Mas, sejamos francos, a verdade é que já não há pachorra. Não há pachorra para o clã Markl, para os Salvadores Martinhas, para os pseudo-intelectuais com barba rala de quatro dias, blazers justinhos, quase cintados, com t-shirts de filmes do Tarantino ou de jogos da NES ou da Atari por baixo, sempre com um ar oh-so bichona/boiola/metrossexual-porque-está-na-moda, a repetirem as mesmas piadas vezes sem conta, a fazerem aquele tom de fim de frase de quem está envergonhado ou de quem se apercebe, conscientemente, de qualquer coisa inconsciente, como "ah, ok, se calhar isto não era para dizer", enquanto fogem com os olhos da câmara e apertam os lábios um contra o outro. E, no fundo, o pior é que são todos uma cambada de burros laureados pelos jovenzinhos deste país, que é quem consome aquilo tudo, sem reclamar, que nem se apercebem que os seus ídolos são meras cópias uns dos outros, é tudo gente a tentar ser o outro, é tudo Fernandos Alvins a tentarem ser Ruis Unas, tudo a tentar ser o Manel João Vieira e o Manel João Vieira, enfim, a ser já só uma sombra do que foi, a tentar ser sério quando brinca, a tentar brincar quando está sério, culto, a fingir que não é, e a inspirar toda uma geração de meninos com pretensões de humoristas a serem cultos quando, na verdade, não passam de uma cambada de burros que mal falar sabem.
Mas, enfim, este nem era o teor do comentário. Chamemos-lhe, apenas, uma introdução. O que me levou a ponderar escrever isto foi o programa aberrante (não tenho outra adjectivação possível), que dá pelo nome de Os Culturistas, do passado dia 13 de Junho, aniversário de Fernando Pessoa, que passou no dito Canal Q, programa da autoria de Nuno Artur Silva, director do canal e cara de uma série de programas desinteressantes, no mesmo, apresentado por ele, por Pedro Mexia, e um outro Pedro Vieira, senhor todo ele muito pseudo-culto e ainda mais pseudo-tudo-e-mais-alguma-coisa, cavalheiro que apresenta programas de literatura e cultura no mesmo canal. O convidado do programa em questão foi o poeta, tradutor, teórico, estudioso e demais classificações literário-profissionais-académicas Vasco Graça Moura. Até aqui, enfim, nada de mais, não fora o facto de desgostar dos senhores apresentadores, por anteriores passagens de zapping pelo canal 15 do meo (posição do Q na grelha), e de não achar que a poesia, quer do excelentíssimo Vasco Graça Moura, quer do ilustre Pedro Mexia, vá particularmente de encontro à minha sensibilidade estética. O problema surge no tema do programa. Ora, sobre o que escolheram falar tais digníssimos pensadores da contemporaneidade? Sobre Fernando Pessoa, nem mais. Mas, reconheçamos, sobre Fernando Pessoa sob todo um novo prisma. Talvez com dor-de-cotovelo, talvez só porque, sei lá, há para aí uns senhores professores de ensino básico e secundário e, até, quem diria!, uns senhores professores universitários e uns jovens, uns adultos, uns idosos nem sequer ligados ao estudo científico e "laboratorial" da literatura e da poesia que gostam de Fernando Pessoa, os caríssimos decidiram realizar um programa, no aniversário de um dos nossos maiores e mais geniais poetas, unica e exclusivamente, para dizer mal. Apesar de tudo, Vasco Graça Moura, espicaçado, que foi, ainda foi o único a manter o decoro, dizendo que a sua opinião sobre Pessoa era meramente individual e idiossincrática, que o poeta tem o seu valor e que o seu papel na literatura mundial é incontornável. Mas, tal era o clima de maledicência naquele estúdio, que, em pouco tempo, já até Graça Moura tinha olvidado estes argumentos, e ingressado no dizer mal só porque sim.
É verdade que o Pessoa está na moda. É verdade que, no estrangeiro, particularmente em países anglófonos, o Pessoa é dos nossos autores mais lidos e traduzidos. É verdade que muitos jovens se interessam por Pessoa por causa da sua suposta esquizofrenia, da sua loucura, dos temas de cansaço e melancolia e solidão e incapacidade e diletância física, patentes nos seus poemas mais conhecidos. Mas é também verdade que Fernando Pessoa tem uma qualidade inegável. Pode não agradar a todos, mas agrada a grande parte, pela universalidade das suas mensagens, pela intemporalidade dos seus temas. Pessoa nunca será apenas um modernista. Não sei se era louco, ou não, e, com toda a franqueza, enquanto estudioso e trabalhador da literatura, isso não me interessa. Interessa-me o seu legado, interessa-me quanto daquilo que leio, de Pessoa, me diz coisas íntimas, ao coração e à alma. Pessoa fazia da palavra e da língua o seu laboratório, e fazia-o como tão poucos, ao longo da história da humanidade, o souberam fazer. E é ridículo que uns senhores muito cultos se juntem apenas para dizer mal. Para reduzir Fernando Pessoa a umas situações ridículas, a um desespero infantil, do qual "qualquer homem adulto saberia sair". Mais ridículo, ainda, quando o programa se auto-intitula "Culturistas". Primeiro, porque, se, por "culturistas" querem fazer um jogo de palavras, rejeitam toda a cultura, toda a literatura e teoria literária, ao rejeitar assim Fernando Pessoa. Depois, porque, se, de facto, são culturistas, no sentido mais... anaeróbico do termo, deviam-se restringir ao que os culturistas sabem fazer. Que é musculação e injecções de esteróides. De literatura é que, lamento, não percebem um chavelho. Ainda para mais, quando o prezado indivíduo que apresenta as outras rubricas de "literatura" do canal alega, neste programa, que nem sequer gosta muito de ler poesia (dizendo, inclusivamente, que não tem, por hábito, ler poesia). Meu amigo, se não gostas de ler poesia, não percebo mesmo porque raio é que estás a apresentar programas de literatura. Poesia e literatura são indissociáveis. Quem gosta de literatura a sério também gosta de poesia e de teatro e de prosa. É assim que as coisas são. Ou, vá lá, podia não gostar muito de poesia. Nada obsta. Mas, por amor da santa, criar, quanto mais não fosse, o hábito de a ler, se se vai ser apresentador pseudo-literato num programa de poesia de um canal pseudo-culto para jovenzinhos em fase "do contra" das suas existências rebeldes.
Queria apenas dizer isto, no final de um texto tão mal estruturado, no qual não disse metade das coisas que tinha em mente: não digam assim mal do Pessoa num programa que tantos miúdos vêem, pode ser? O Pessoa pode ser o que seja, eu próprio já tive a minha fase mais obsessiva, como toda a gente, acho eu, que me passou, e, neste momento, acho que ainda vou gostando apenas de Álvaro de Campos, uma ou outra coisa do Alberto Caeiro, muito pouca coisa do ortónimo, quase nada do Ricardo Reis. Mas sempre muito Bernardo Soares. Sempre todo o Bernardo Soares (a discussão do semi-heterónimo fica para outro post, por agora, fiquemo-nos por isto). Pessoa passou-me um bocado, como passa a tanta gente. Mas fica sempre qualquer coisa, fica sempre muito, porque é isso que acontece com os génios. E não é porque ele está na moda e vai estando e ficando na moda que têm de ser do contra. Sejam do contra em relação ao que está na moda sem dever estar, não sejam do contra só porque sim, irracionalmente. Porque, neste país à beira-mar plantado (e de forma gradualmente assustadora só e apenas plantado, aqui, a vegetar, à espera de milagres), cada vez se lê menos, nem só poesia, mas sobretudo. Portanto, se os miúdos e os jovens agarram Pessoa e gostam, se se revêem naquilo que ele fez, se se identificam, deixem-nos ler Pessoa, deixem-nos amar a poesia, não façam estas coisas, a crucificar um poeta tão bom e tão genial, que é nosso, para os miúdos que assistem ao vosso canal, para o caso de gostarem, deixarem a poesia de lado, influenciados pelo que lhes dizem.
E, só como apontamento, mil vezes Fernando Pessoa, ortónimo, heterónimos, semi-heterónimo, do que Pedro Mexia e/ou Vasco Graça Moura. Só, assim, vá, como achegazinha. Mil vezes o Pessoa na moda, do que o humor e a alegada cultura "alternativa" de rebanhos que se vai fazendo no Canal Q e nos media, do contra só porque sim.

P.S.: no dia do aniversário da morte do Saramago, esse cavalheiro que escrevia mal que se fartava, mas que é mitificado só por receber uma porcaria de um Nobel (prémio que, quem está por dentro, sabe ser atribuído, nos últimos anos, apenas por mérito social e político, não literário), o Q fez pelo menos um programa a dizer bem do senhor laureado. Viva a congruência e a honestidade intelectual e a integridade de princípios dos energúmenos do Canal Q!!! Hooray!

quarta-feira, março 30, 2011

once again, with feeling

É verdade que "estamos velhos para ler e fazer poesia como líamos e fazíamos". Agora, "temos todo um conhecimento por trás, a poesia que nos sai tem de ser mais completa, tem de servir um propósito mais iluminado, mais esclarecido, temos outros conhecimentos, outras vivências, e a poesia não é para ser banalizada". Tudo bem. Não deixa de ser verdade. Mas sinto uma falta imensa, tremenda, mesmo, de escrever poesia e de ler poesia como lia, como escrevia. É terrível, para mim, ter perdido um grupo de amigos que escreviam poesia (e era mesmo poesia, a sério que era, não eram só umas coisitas que se iam escrevendo e mostrando), um verdadeiro grupo criativo, onde íamos crescendo enquanto poetas e enquanto pessoas, vendo bem as coisas.
Desde que voltei à faculdade, não se encontra um indivíduo que demonstre verdadeiro interesse por isso. Acredito, talvez no auge da minha tão bem sabida ingenuidade perante as coisas, que existirão por lá pessoas que gostem de poesia, que escrevam as suas coisas, que mantenham blogs, mas esta geração mais nova (os que entraram este ano são de 92) tem-me desiludido bastante. A vários níveis. Não é que não se interessem, simplesmente não parecem interessados naquilo que é a espinha dorsal do curso em que estão - e em questão: falo das pessoas do meu curso, Línguas, Literaturas e Culturas (Línguas e Literaturas Modernas, ainda quando entrei nele pela primeira vez), independentemente da variante escolhida... essas pessoas deviam, pelo menos, ter um mínimo interesse por literatura, julgo eu, ainda que mal, se calhar, mas deviam. E isto não é só poesia, está certo, mas é também, correcto? Ou não? Enfim, tendo uma predilecção por poesia, não descarto nem descuro nem desgosto da prosa. Gosto de ambas. E de escrita dramatúrgica, teatro, claro. Tudo. Não gosto é do que passa por ser literatura, e vejo toda a gente só a falar disso, como se a fosse. Falam do Harry Potter (da J.K. Rowling, aliás, ainda que nunca a refiram), do Dan Brown, do Miguel Sousa Tavares, como se isso fosse a verdadeira literatura, é possível, até, que nunca tenham lido nada que realmente valesse a pena. E isto é triste, é muito triste, para mim, pelo menos.
Tento falar com pessoas que vou conhecendo mas isso já nem é assunto que interesse, numa conversa. Não lhes interessa que tenha blogs ou cadernos, não estão interessados em ver os meus mais recentes textos, como outras pessoas, noutro tempo, no mesmo lugar, estiveram... as únicas pessoas que ainda vão escrevendo e editando (através de editoras online, estilo do it yourself, como a Lulu ou a EuEdito), escrevem, para ser directo, mal, com erros e sem coerência nem maturidade, ainda com um narcicismo muito vigoroso do qual não querem abdicar, por se recusarem à tal partilha edificante de textos, antes de os terem em formato livro. E, pronto, "estas" pessoas resumem-se a "esta" pessoa, um amigo de filosofia que, apesar de tudo, lê coisas boas, embora prefira falar de filmes, de drogas, de música, de mulheres, de carros, enfim... quase tudo, antes de se esgotar o assunto e falar de poesia.
Muito sinceramente, é possível que esse grupo a que pertenci fosse imaturo e infantil demais, talvez a nossa poesia de então ainda precisasse de crescer, se calhar alguns dos elementos desse quarteto original estejam melhor assim, evoluindo na sua individualidade de académicos e estudiosos, e desejo-lhes, com toda a honestidade, o melhor. Contudo, estes, que entraram agora, ainda estariam no "direito" de escrever e ler com a inocência que nos foi própria, com aquele encanto, a dádiva da poesia em conjunto, a maravilha de ler um poema novo de um amigo, a alegria de uma coisa nossa, individual e comum. Estariam no "direito" de não ser educados, maduros, formados pela escola e pela vida, de ainda se encantarem com o fazer poesia, com o ler poesia, sem análises, sem teorias do Bernstein ou do Adorno ou do Benjamin ou do Heidsieck ou do Alberto Pimenta ou do Steiner por trás, só as teorias do amor à arte, só a paixão pelas palavras, pelas imagens, pelas figuras de estilo, pela fluência dessa coisa maior da qual nos tornamos veículos. Claro que importam esses teóricos, esses linguistas, esses estudiosos, esses académicos, claro que sim, e não o digo com ironia, digo-o com franqueza, mas, na minha humilde perspectiva, demasiada instrução e teorização acaba por destruir o espírito "nobre" e "original" a que essa poesia despretensiosa se propõe. A própria Doris Lessing, no prefácio ao seu The Golden Notebook, alega ter desistido da escola com 14 anos, de achar que tinha perdido muito, numa fase da sua vida, e ter voltado a estudar, a frequentar seminários, leituras, apresentações, só para se aperceber que, afinal, estava a fazer melhor, sem toda aquela carga excessiva de teorias e de explicações académicas, que tudo aquilo era fastidioso, fatigante e, no fim de contas, não servia para nada. Enfim, estes jovens estavam em condições de, de uma forma limpa e revigorante, olharem para a poesia e escreverem a poesia, amarem-na, admirarem-na, não como coisa que criaram, mas como algo maior, que saiu deles, que passou por um processo de "filtragem", em que o "filtro" foram eles, autores do poema, poetas. É sobretudo isto que me dói.
Percebo que os meus antigos companheiros de poesia e de amizade já não estejam dispostos à minha forma "não-evoluida", imatura, infantil, estagnada, até, se quisermos, de ir fazendo poesia, mas estas novas pessoas não estão nesse caso e, no entanto, parecem velhos fora de tempo, a viver as suas vidas sem interesse, a ir às compras, a conversar acerca da Lady Gaga e da Katy Perry e de um sem-número de bandas de rock indie que não ficarão para a história, porque são todas, sem excepção, iguais entre si, a trabalhar para o curso "porque tem de ser"... mas ler, nada. Muito menos falar disso.
A namorada de um amigo, em jeito ofensivo, diz-lhe que ele vai ser "especialista em papéis", explicando de forma clara o que os jovens de hoje acham em relação ao nosso curso. Não é preciso amor a nada, nem gostar de ler nada. A única coisa que nos resta é aprender umas teorias, saber relacionar uns conceitos, ter pensamento lógico e abstracto e decorar umas regras linguísticas, saber fazer ensaios e recensões e teses. Porque um especialista em papéis não precisa de gostar de poesia.