domingo, janeiro 29, 2012

(o costume)

É provavelmente o que me ouviste e leste e imaginaste dizer durante este tempo todo, este pouco tempo que soube a tanto, talvez a demasiado, às vezes, mas desculpa. Não me parece que acredites na desculpa, as pessoas não mudam assim, se calhar as pessoas nunca mudam, é verdade, e não é reconhecer os erros que me faz apagá-los ou sequer penitenciar-me deles, mas desculpa, a sério.
Já fui deixando de perceber se a culpa existe ou, a existir, de quem é. Se existe, é dos dois, é o que nos diz o senso-comum, preenchido das banalidades e das convenções sociais que nos permitem continuar a existir. A lógica pequena da vida, a que lhe tentamos atribuir em tudo o que fazemos, em todo o caos e acaso e intenções dum lado versus as intenções do outro diz-nos que a culpa é repartida. Talvez nem se justifique falar em culpa, mas se peço des-culpa é porque assumo a minha culpa. E assumo-a, assumo todas as imbecilidades que fiz e arrependo-me delas. Publicamente peço-te perdão pelas atitudes asquerosas e guiadas pela ira e pelo despeito, que tomei, nomeadamente neste mesmo blog, com um post cravejado de mentiras. Não importa o seu propósito, que existia, mas os fins não justificam os meios, portanto, espero que me perdoes desse acto estúpido e hediondo de expôr uma vida íntima que nem sequer foi a tua/nossa. A raiva por detrás disso, o despeito por detrás disso, a mágoa por detrás disso, nenhuma destas coisas serve como justificação. Aquele post não deveria sequer ter sido pensado, quanto mais publicado.
Guardo coisas boas, do que fomos. Deste-me mais do que pedi, simplesmente não soubémos corresponder ao que um e outro precisávamos. Pelo menos é a resposta mais simples e socialmente correcta, logo, fico-me por ela. E é a verdade.
Isto custa-me, e não por nenhuma ofensa que me tenhas feito, não por me teres ou não tratado mal (ou "menos bem"), não por não teres sabido corresponder ao que quer que seja... custa-me porque te amei imenso, mostrei-te o meu amor todo e nunca te escondi nada, dei-te tudo de mim, ainda que às vezes talvez não o saiba ter mostrado claramente. A angústia disso, de ter de criar as estruturas necessárias, se bem que falsas, de que já não te quero ou de que já não "gosto de ti", é que me faz depois ter atitudes imbecis de escrever textos ofensivos que nem tu nem ninguém mereceriam. Mereces que te deseje bem, que te queira bem, e que te deixe seguir a tua vida em paz, saúde e felicidade. Mereces que te guarde para sempre num lugar especial no meu coração e na minha alma, e acredita que ocupas esse espaço.
É melhor que nos afastemos, mas sabe que o que vivemos vai ser sempre muito importante para mim. És uma pessoa linda e maravilhosa, e sei que vais encontrar alguém que te saiba ajudar a ser mais feliz. Sei que vais ficar bem, porque mereces ficar bem.
Lamento ter-te feito perder tanto tempo e tanta saúde mental. Genuinamente. Desejo-te tudo de bom, do fundo do coração. E espero que daqui a uns tempos consigas mesmo acreditar na verdade disto tudo. Desculpa também não ter sabido ser mais e melhor, como precisavas.
Um abraço. Sabe um abraço. Entende este abraço. Se possível, lembra-nos como uma coisa mais boa do que má.

domingo, janeiro 22, 2012

sevícia

Envelhecer é uma coisa triste. Muito triste. A vida vai-nos destruindo aos poucos, e lembro-me sempre das palavras de uma amiga - julgo que parafraseando alguém - em relação àquela teoria tão repetida (como tantas dessas teorias que "ajudam", repetidas ao longo de séculos, milénios, talvez, até, só para que acreditemos nelas), de que se aprende com os erros: "if you learn from a mistake then it's not one". Subscrevo. Essa ideia de que as coisas más nos vão tornando mais fortes não passa de um mito que dá jeito, uma ficção, entre todas as ficções, de que precisamos, com vista à sobrevivência. A saúde emocional, como a saúde mental, não distam tanto assim da saúde física; ou seja, sempre que parto um braço, ele não vai ficar mais forte, quando recuperar. Fica fragilizado. Vai passar a doer com as mudanças de temperatura. Nunca mais vai ter a destreza e a força física que teve, em tempos. E até posso resguardá-lo mais, porque "aprendi com o erro" e terei mais cuidado com ele, mas o mal está feito, e o braço nunca recuperará. A mesma coisa se passa com a saúde emocional. Se sofro, se me dói, se me corrói a angústia e o desgosto e a falta de amor e de encanto, o mal está feito. Ganhei um braço partido na alma e esse braço está arruinado para sempre. Às vezes a alma tem de reaprender a escrever, porque o braço fica tão fragilizado que é necessária fisioterapia anímica. E, tal como num braço físico que se parte, por mais cuidado que se tenha, no recobro, para que não se volte a partir, eventualmente tem de se recomeçar a usá-lo e o quotidiano volta a trazer-nos a necessidade de o usar, com as dores novas, é certo, mas de o usar como sempre o usámos. Um braço é um braço, é necessário, é essencial, tem uma função, como braço, e por mais precauções que se tomem, o seu uso, a sua função primária e instintiva fazem sempre com que corra riscos. Uma alma corre sempre riscos.
Tenho conhecido pessoas que se fecham numa cobardia de não viver porque "aprenderam com os erros" e, portanto, nunca se dão a ninguém. Uma vez, num passado qualquer, magoaram-se. Magoaram isto a que tenho estado a chamar de alma, mas que pode ter o nome que se lhe quiser dar. Partiram-na. E ela recupera, como tudo, em nós, recupera, mesmo que leve muito tempo. Por vezes, esse trabalho de recuperação é tanto e tão exigente, que quase nos assustamos em usar a alma como dantes. De sermos como antes. É natural que muita gente ligue este mecanismo quase mecânico, muito "não-orgânico" de auto-defesa e simplesmente deixem de se apaixonar, de acreditar (porque "acreditar em certas coisas, como o amor ou os «para sempres» é coisa infantil e de pessoa que não quer crescer e enfrentar a vida")... natural, porque o compreendo, porque entendo porque o façam. É compreensível, enfim, que o façam. Não sei se realmente tão natural assim.
Exige coragem perceber que o braço partido da alma pode estar fragilizado, mas que temos de continuar a usá-lo como braço. Porque a alma parte-se, com certeza, mas não se nos é amputada. O que há é quem prefira convencer-se disso. Exige coragem, muita, mesmo, reeducar a alma para o amor, para o encanto, para os "para sempres", mesmo que já se tenha batido com a testa anímica tantas vezes contra paredes (autênticas muralhas) a circundar corações alheios. Fingir que se "aprende com os erros" e fechar-se à vida, isso, sim, é coisa de crianças, ainda que não se veja crianças factuais a fazerem-no. Mas, pronto, fazendo a vontade a mim próprio, suponhamos que há uma infância para as almas, também.
Não me quero deixar envelhecer a achar que o amor não vale a pena, que nada da beleza e da arte e de nos encantarmos com alguém vale a pena... isso é para gente que desistiu de viver e nem se apercebeu.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

take two

em anos e anos nunca aprender a lidar com a solidão. eis a merda da resposta a isto tudo. cromossomas e genes e física, neutrões, protões, astros. foda-se. e o amor e os sorrisos? merda. ninguém entende a ciência da amizade, dos cafés, das conversas. e se isso pode ser explicado em duas frases pela psicologia, pela biologia, pela matemática aplicada ao caralho-que-a-foda, não pode ser explicado.
e a única resposta da arte em relação a isso é um pássaro. e um pássaro é bonito, mas para os cientistas não é uma resposta, é só outra coisa para ser estudada como uma pergunta.
portanto, a arte responde com uma pergunta em forma de pássaro. e isso é a melhor resposta ao acto de ir existindo, ao cliché pós-moderno de se ir sobrevivendo.
em anos amar a solidão e notá-la fazer sentido, "foda-se, a solidão faz sentido, os livros/os filmes/os discos/os animais são melhores que as pessoas!", mas nunca saber lidar com ela, nunca notar que não se sabe aguentá-la.
precisar de foder porque vai dar quase ao mesmo que amar, custando, ainda por cima, menos.

terça-feira, setembro 20, 2011

Dever/Haver



No próximo Sábado, pelas 18:30, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, Lisboa (na zona de Santos), lançamento do livro Dever/Haver, de João Silveira.

segunda-feira, setembro 05, 2011

convite!



No próximo Sábado, dia 10 de Setembro, será lançado o meu primeiro livro (excluindo a edição online de para um frigoríco e uma bateria de carro abandonados, ed. Lulu.com), intitulado O Comportamento das Paisagens, pelas edições Artefacto, no Palácio de Laguares (Campolide). O evento terá início às 18:30, contando com apresentação do Professor Doutor Fernando Pinto do Amaral, do editor Paulo Tavares e do autor (eu próprio), leitura de poemas por Cláudio Rodrigues, momentos musicais a cargo de Nelson Luis Ribeiro, no clarinete, e Tomás Quitério, no piano, e será também palco de uma exposição de Maria João Lopes Fernandes, ilustradora da capa do livro.
Uma vez que o lançamento do livro está incluído nas comemorações dos 126 anos da Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul (de quem a Artefacto é a vertente editorial), só as pessoas que apresentarem o convite colocado seguidamente poderão entrar de forma gratuita.

Convite a ser imprimido pelas pessoas interessadas e apresentado à entrada do evento, para entrada grátis. Clicando na imagem em thumbnail aqui presente, podem ter acesso à resolução original, mais adequada à impressão.

Agradeço, antes de mais, a todos os que estiverem interessados em ir, aos que possam deslocar-se, sim, mas também àqueles que, por variadas razões, gostariam de estar presentes e não podem. Sentirei o vosso apoio, carinho e amizade na mesma e terei, nalguns casos, livros para grande parte de vós.
Fica, pois, o convite genuino e fraterno a todos os que queiram e se possam deslocar para uma tarde de poesia e intimidade de palavras partilhadas, no Palácio de Laguares, Sábado, 10 de Setembro, pelas 18:30. Se puder contar com a vossa presença, teria ainda muito mais prazer e gosto, do que o que tenho, à partida. Este livro é, primeiramente, vosso. Não é propriedade minha, tirando no sentido autoral. Logo, faria todo o sentido que o lançamento se fizesse também pautar pela vossa companhia.

Um enorme abraço,

Pedro Tiago

quarta-feira, agosto 24, 2011

velhice mental, ou prudência? ah, porra...

É possível que esteja a ficar velho. Bem, é pelo menos possível que esteja a ficar chato, um bocadinho velho antes de tempo... tenho amigos mais velhos que eu que não são tão chatos, tão peremptórios, que prezam uma liberdade em tudo. E o que me irrita um bocado é que também já fui assim. Mas vou sendo cada vez menos, pronto. Não vale a pena discorrer sobre isso. A minha pessoa de hoje é assim, é isso, por mais que me irrite, que me aborreça. E que aborreça outros, que me rodeiam.
A verdade é que só há dias dei por um fenómeno musical recente em Portugal, uns tais de Amor Electro, que se apresentam como banda Pop, Alternativa, Electrónica e demais rótulos desses que se usam para referir a música, hoje em dia. Ora, os Amor Electro são um desses super-grupos do pop electro que se tem vindo a fazer em Portugal desde meados dos anos noventa, e em particular desde 2000, com bandas como os The Gift, os Mesa, os Donna Maria (cuja ex-vocalista, Marisa Pinto/Marisa Liz é a actual vocalista dos Amor Electro) e, em certa medida, os próprios Clã e projectos que deles saíram (Humanos, etc). Ouvindo Amor Electro ou qualquer uma destas outras bandas (quase de certeza que há mais, estas são apenas as de que me recordo) vai dar ao mesmo. O som é o mesmo, uma melodia envolta em batidas electrónicas, senhoras com vozes muito soul, muito fado, citando os mesmos exemplos estrangeiros (Air, Massive Attack, Portishead, etc), referindo sempre a mesma originalidade, sempre a mesma certeza absoluta de estarem a fazer "qualquer coisa diferente" no panorama musical português.
No myspace da banda Amor Electro alguém referia que o seu single, "Máquina", é uma música arrasadora, genial, que não cansa. Isto lembrou-me dos comentários idênticos a, por exemplo, singles dos Mesa ("Luz Vaga") ou dos próprios Donna Maria ("Quase Perfeito"). Ora, essas faixas, anos passados sobre elas, são coisas que analisamos com alguma distância como eventos que inundaram as rádios durante meses, que "não cansavam", que "eram geniais", que "nunca se tinha ouvido nada assim", mas que, com o passar do tempo, simplesmente desapareceram do ar e das lembranças do público. Há, com certeza, fãs dessas bandas que ouvem os cds, mas são uma minoria, porque o público-alvo desse tipo de música acaba por ser aquele género de pessoa que ouve uma musiquinha no carro, a caminho do emprego, ou num jantar de amigos, de volta de uns copos de qualquer coisa alcoólica, enquanto se fala de economia, de roupa, dos filhos ou da falta dos mesmos, da colega de trabalho que não devolveu uns óculos de sol emprestados, e por aí fora. Claro que, não sendo preclaro, não podendo prever o futuro, tudo isto não passam de conjecturas, da minha parte, e é possível que estes senhores fiquem para a história, façam uma pequena carreira. Sim, é possível, os já referidos The Gift, pais deste tipo de música, em Portugal, aí continuam, a lançar cds com cada vez mais valor de produção (embora não necessariamente qualidade), e os seus singles do passado são parte integrante de um repertório factual da música pop que ficou inscrita na história recente da memória musical. Mas, com toda a franqueza, não me parece. Porque os coloco ao mesmo nível dos outros, de Mesas e Donnas Marias e outros que tais. A questão da efemeridade da música pop já é largamente debatida por quem tem mais direito e propriedade para o fazer, do que eu, portanto, tentarei entrar por esse caminho o menos possível, sendo, contudo, óbvio que isso explicaria muita coisa a este respeito. Coisas que estavam em voga há uns seis, sete anos, já não são lembradas por ninguém, a menos que fizessem parte daquele lote de coisas próprias da nostalgia que, "de tão más, são boas". Até no dia-a-dia nos podemos aperceber disso, olhando para o agora. Os Deolinda, por exemplo, misturando também o fado com algum jazz e música tradicional, resultando num pop mais tradicional, onde o fado assume o papel principal, já tiveram o seu pico de popularidade e estão assumidamente a desvanecer. A seguir às manifs "À Rasca", que por aí grassaram, e que, até ver, não passaram de um fenómeno mediático que os media acarinharam e levaram ao colo até onde puderam (manifs, essas, que funcionaram sempre em torno do tema dos Deolinda, "Parva Que Sou"), a banda tem estado a desaparecer por entre os tecidos do tempo, para ficar, por exemplo (porque não?), na condição de projectos como os Rio Grande ou os mais recentes Cabeças no Ar.
É claro que as bandas que ouço, desde Belle Chase Hotel a Man Man, de Morphine a Sonic Youth, de Menomena a Dead Combo, podem nunca ficar para a história. Estão nas mesmas condições. Só que o público-alvo deles raramente foi algum. Eles quiseram/querem fazer a música que lhes apetece, tentando trazer algo de novo ao oásis de criação que o pós-modernismo nos oferece, com tantos limites abertos, que acaba por no-los fechar todos, também. E, convenhamos, os verdadeiros fãs destes grupos não se comportam como fãs casuais do pop electrónico português. Esse tipo de fãs limita-se a acompanhar os fenómenos, enquanto o verdadeiro apreciador de uma banda (coisa que julgo ser apenas possível se a qualidade da banda for boa) tem sempre em mente o trabalho discográfico ao longo dos anos, no seu todo. Para além disto, tenho a decência de saber gostar dos verdadeiros mestres consagrados da música erudita/clássica e do jazz, nomes que vão muito para além de hits de rádio e um ou outro jovenzinho a querer ser adulto que proclama "esta música é genial e não cansa nunca!"
Devo deixar que seja a história a julgar os Amor Electro, os Deolinda, os Mesa, os Donna Maria. Devo. Mas creio que o seu caminho irá, invariavelmente, desembocar nesse tecido temporal reservado às coisas que se esquecem. Que talvez se ouçam de vez em quando, passados uns anos, numa situação ocasional, sem entusiasmo e apenas uma ou duas vezes.
Para terminar, deixo só uma nota, em jeito de ironia, para quem o quiser entender assim, ou em jeito de afirmação verdadeira e sincera, para os que se quiserem manter zen e ingénuos, sem ofensas contra ninguém, que nada disto é para levar a sério. A contemporaneidade é uma velocidade constante e sempre maior, imparável, e pedir que se procure a qualidade, ao invés da quantidade célere e efémera dos dias de hoje, é apenas estúpido. Não sejam estúpidos, pois. Não façam caso. Gastem tempo com tudo o que não vale a pena.

segunda-feira, julho 11, 2011

why must itself up every of a park
anus stick some quote statue unquote to
prove that a hero equals any jerk
who was afraid to dare to answer "no"?
quote citizens unquote might otherwise
forget(to err is human;to forgive
divine)that if the quote state unquote says
"kill" killing is an act of christian love.
"Nothing" in 1944 AD
"can stand against the argument of mil
itary necessity"(generalissimo e)
and echo answers "there is no appeal
from reason"(freud)--you pays your money and
you doesn't take your choice. Ain't freedom grand



E.E. Cummings

quinta-feira, junho 30, 2011

Canal Q, ou "a necessidade de irmos contra a corrente só porque sim"

Este texto já andava para ser escrito há algum tempo, mas confesso que não tenho dedicado as minhas férias à escrita, lamentavelmente, e muito menos à escrita no que aos blogs diz respeito, particularmente este blog, em concreto. Mas vai ser agora.
Existe um canal, exclusivo do meo, serviço de televisão por cabo que subscrevo, que dá pelo nome minimalista de "Q". É um canal das Produções Fictícias (PF) e, como tal, apresenta-se como um canal de humor e de estilo de vida "alternativo", ou, pelo menos, aquilo que hoje em dia vai passando como alternativo. Não é que não ache alguma piada aos formatos das PF, não é que não aprecie o tipo de humor tantas vezes deadpan e nonsense pelo qual eles se parecem reger, ou, vá, no mínimo, pela ironia e sarcasmo latentes em quase tudo o que fazem. Mas, como é sabido, tudo o que é demais (e de mais), enjoa. E as PF andam pelos meios televisivos como se fossem a única companhia a criar humor, neste momento, em Portugal. Quase tudo o que se vê é PF. Os tão acarinhados Gato Fedorento (mesmo que eu não entenda o porquê de tanto entusiasmo em torno desses cavalheiros, nunca me agradaram por aí além) são PF. O grupinho de Bruno Nogueira e João Quadros e etc. e tal é PF. Os guiões do Herman José são das PF (talvez daí a genuína perda de piada do senhor, de uns anos a esta parte? Só um palpite, digo eu, caro Herman). As PF estão, para o humor, como o Acontece estava, para a cultura em TV, há uns anos atrás. E, se alguém sequer se lembra, o fim do programa deu-se, entre outras razões, porque monopolizava tudo o que era cultura, não dando espaços e oportunidades a quaisquer outras plataformas. Claro que se poderá (e deverá) argumentar que, depois do Acontece, as coisas não melhoraram muito. É verdade. Diria mesmo que não melhoraram nada. Agora, bem vistas as coisas, nem sequer há um programa de cultura, per se, na televisão. Mas, pelo menos, sacudiu-se aquele mofo. E, sim, é provável que não haja mais ninguém disponível para fazer humor em TV e rádio e na internet, como as PF se disponibilizam e prontificam a fazer. Poder-me-ão, ainda, dizer que os tipos do GANA/CENA/Pomada Indiana/etc., se venderam às PF (João Moreira surge, diversas vezes, vestido de galináceo, na programação mais recente do Canal Q, por exemplo), e que eles eram a única alternativa verdadeira a esse gigante do humor e dos guiões que se querem humorísticos para tudo relacionado com os media. Mas, sejamos francos, a verdade é que já não há pachorra. Não há pachorra para o clã Markl, para os Salvadores Martinhas, para os pseudo-intelectuais com barba rala de quatro dias, blazers justinhos, quase cintados, com t-shirts de filmes do Tarantino ou de jogos da NES ou da Atari por baixo, sempre com um ar oh-so bichona/boiola/metrossexual-porque-está-na-moda, a repetirem as mesmas piadas vezes sem conta, a fazerem aquele tom de fim de frase de quem está envergonhado ou de quem se apercebe, conscientemente, de qualquer coisa inconsciente, como "ah, ok, se calhar isto não era para dizer", enquanto fogem com os olhos da câmara e apertam os lábios um contra o outro. E, no fundo, o pior é que são todos uma cambada de burros laureados pelos jovenzinhos deste país, que é quem consome aquilo tudo, sem reclamar, que nem se apercebem que os seus ídolos são meras cópias uns dos outros, é tudo gente a tentar ser o outro, é tudo Fernandos Alvins a tentarem ser Ruis Unas, tudo a tentar ser o Manel João Vieira e o Manel João Vieira, enfim, a ser já só uma sombra do que foi, a tentar ser sério quando brinca, a tentar brincar quando está sério, culto, a fingir que não é, e a inspirar toda uma geração de meninos com pretensões de humoristas a serem cultos quando, na verdade, não passam de uma cambada de burros que mal falar sabem.
Mas, enfim, este nem era o teor do comentário. Chamemos-lhe, apenas, uma introdução. O que me levou a ponderar escrever isto foi o programa aberrante (não tenho outra adjectivação possível), que dá pelo nome de Os Culturistas, do passado dia 13 de Junho, aniversário de Fernando Pessoa, que passou no dito Canal Q, programa da autoria de Nuno Artur Silva, director do canal e cara de uma série de programas desinteressantes, no mesmo, apresentado por ele, por Pedro Mexia, e um outro Pedro Vieira, senhor todo ele muito pseudo-culto e ainda mais pseudo-tudo-e-mais-alguma-coisa, cavalheiro que apresenta programas de literatura e cultura no mesmo canal. O convidado do programa em questão foi o poeta, tradutor, teórico, estudioso e demais classificações literário-profissionais-académicas Vasco Graça Moura. Até aqui, enfim, nada de mais, não fora o facto de desgostar dos senhores apresentadores, por anteriores passagens de zapping pelo canal 15 do meo (posição do Q na grelha), e de não achar que a poesia, quer do excelentíssimo Vasco Graça Moura, quer do ilustre Pedro Mexia, vá particularmente de encontro à minha sensibilidade estética. O problema surge no tema do programa. Ora, sobre o que escolheram falar tais digníssimos pensadores da contemporaneidade? Sobre Fernando Pessoa, nem mais. Mas, reconheçamos, sobre Fernando Pessoa sob todo um novo prisma. Talvez com dor-de-cotovelo, talvez só porque, sei lá, há para aí uns senhores professores de ensino básico e secundário e, até, quem diria!, uns senhores professores universitários e uns jovens, uns adultos, uns idosos nem sequer ligados ao estudo científico e "laboratorial" da literatura e da poesia que gostam de Fernando Pessoa, os caríssimos decidiram realizar um programa, no aniversário de um dos nossos maiores e mais geniais poetas, unica e exclusivamente, para dizer mal. Apesar de tudo, Vasco Graça Moura, espicaçado, que foi, ainda foi o único a manter o decoro, dizendo que a sua opinião sobre Pessoa era meramente individual e idiossincrática, que o poeta tem o seu valor e que o seu papel na literatura mundial é incontornável. Mas, tal era o clima de maledicência naquele estúdio, que, em pouco tempo, já até Graça Moura tinha olvidado estes argumentos, e ingressado no dizer mal só porque sim.
É verdade que o Pessoa está na moda. É verdade que, no estrangeiro, particularmente em países anglófonos, o Pessoa é dos nossos autores mais lidos e traduzidos. É verdade que muitos jovens se interessam por Pessoa por causa da sua suposta esquizofrenia, da sua loucura, dos temas de cansaço e melancolia e solidão e incapacidade e diletância física, patentes nos seus poemas mais conhecidos. Mas é também verdade que Fernando Pessoa tem uma qualidade inegável. Pode não agradar a todos, mas agrada a grande parte, pela universalidade das suas mensagens, pela intemporalidade dos seus temas. Pessoa nunca será apenas um modernista. Não sei se era louco, ou não, e, com toda a franqueza, enquanto estudioso e trabalhador da literatura, isso não me interessa. Interessa-me o seu legado, interessa-me quanto daquilo que leio, de Pessoa, me diz coisas íntimas, ao coração e à alma. Pessoa fazia da palavra e da língua o seu laboratório, e fazia-o como tão poucos, ao longo da história da humanidade, o souberam fazer. E é ridículo que uns senhores muito cultos se juntem apenas para dizer mal. Para reduzir Fernando Pessoa a umas situações ridículas, a um desespero infantil, do qual "qualquer homem adulto saberia sair". Mais ridículo, ainda, quando o programa se auto-intitula "Culturistas". Primeiro, porque, se, por "culturistas" querem fazer um jogo de palavras, rejeitam toda a cultura, toda a literatura e teoria literária, ao rejeitar assim Fernando Pessoa. Depois, porque, se, de facto, são culturistas, no sentido mais... anaeróbico do termo, deviam-se restringir ao que os culturistas sabem fazer. Que é musculação e injecções de esteróides. De literatura é que, lamento, não percebem um chavelho. Ainda para mais, quando o prezado indivíduo que apresenta as outras rubricas de "literatura" do canal alega, neste programa, que nem sequer gosta muito de ler poesia (dizendo, inclusivamente, que não tem, por hábito, ler poesia). Meu amigo, se não gostas de ler poesia, não percebo mesmo porque raio é que estás a apresentar programas de literatura. Poesia e literatura são indissociáveis. Quem gosta de literatura a sério também gosta de poesia e de teatro e de prosa. É assim que as coisas são. Ou, vá lá, podia não gostar muito de poesia. Nada obsta. Mas, por amor da santa, criar, quanto mais não fosse, o hábito de a ler, se se vai ser apresentador pseudo-literato num programa de poesia de um canal pseudo-culto para jovenzinhos em fase "do contra" das suas existências rebeldes.
Queria apenas dizer isto, no final de um texto tão mal estruturado, no qual não disse metade das coisas que tinha em mente: não digam assim mal do Pessoa num programa que tantos miúdos vêem, pode ser? O Pessoa pode ser o que seja, eu próprio já tive a minha fase mais obsessiva, como toda a gente, acho eu, que me passou, e, neste momento, acho que ainda vou gostando apenas de Álvaro de Campos, uma ou outra coisa do Alberto Caeiro, muito pouca coisa do ortónimo, quase nada do Ricardo Reis. Mas sempre muito Bernardo Soares. Sempre todo o Bernardo Soares (a discussão do semi-heterónimo fica para outro post, por agora, fiquemo-nos por isto). Pessoa passou-me um bocado, como passa a tanta gente. Mas fica sempre qualquer coisa, fica sempre muito, porque é isso que acontece com os génios. E não é porque ele está na moda e vai estando e ficando na moda que têm de ser do contra. Sejam do contra em relação ao que está na moda sem dever estar, não sejam do contra só porque sim, irracionalmente. Porque, neste país à beira-mar plantado (e de forma gradualmente assustadora só e apenas plantado, aqui, a vegetar, à espera de milagres), cada vez se lê menos, nem só poesia, mas sobretudo. Portanto, se os miúdos e os jovens agarram Pessoa e gostam, se se revêem naquilo que ele fez, se se identificam, deixem-nos ler Pessoa, deixem-nos amar a poesia, não façam estas coisas, a crucificar um poeta tão bom e tão genial, que é nosso, para os miúdos que assistem ao vosso canal, para o caso de gostarem, deixarem a poesia de lado, influenciados pelo que lhes dizem.
E, só como apontamento, mil vezes Fernando Pessoa, ortónimo, heterónimos, semi-heterónimo, do que Pedro Mexia e/ou Vasco Graça Moura. Só, assim, vá, como achegazinha. Mil vezes o Pessoa na moda, do que o humor e a alegada cultura "alternativa" de rebanhos que se vai fazendo no Canal Q e nos media, do contra só porque sim.

P.S.: no dia do aniversário da morte do Saramago, esse cavalheiro que escrevia mal que se fartava, mas que é mitificado só por receber uma porcaria de um Nobel (prémio que, quem está por dentro, sabe ser atribuído, nos últimos anos, apenas por mérito social e político, não literário), o Q fez pelo menos um programa a dizer bem do senhor laureado. Viva a congruência e a honestidade intelectual e a integridade de princípios dos energúmenos do Canal Q!!! Hooray!

quarta-feira, março 30, 2011

once again, with feeling

É verdade que "estamos velhos para ler e fazer poesia como líamos e fazíamos". Agora, "temos todo um conhecimento por trás, a poesia que nos sai tem de ser mais completa, tem de servir um propósito mais iluminado, mais esclarecido, temos outros conhecimentos, outras vivências, e a poesia não é para ser banalizada". Tudo bem. Não deixa de ser verdade. Mas sinto uma falta imensa, tremenda, mesmo, de escrever poesia e de ler poesia como lia, como escrevia. É terrível, para mim, ter perdido um grupo de amigos que escreviam poesia (e era mesmo poesia, a sério que era, não eram só umas coisitas que se iam escrevendo e mostrando), um verdadeiro grupo criativo, onde íamos crescendo enquanto poetas e enquanto pessoas, vendo bem as coisas.
Desde que voltei à faculdade, não se encontra um indivíduo que demonstre verdadeiro interesse por isso. Acredito, talvez no auge da minha tão bem sabida ingenuidade perante as coisas, que existirão por lá pessoas que gostem de poesia, que escrevam as suas coisas, que mantenham blogs, mas esta geração mais nova (os que entraram este ano são de 92) tem-me desiludido bastante. A vários níveis. Não é que não se interessem, simplesmente não parecem interessados naquilo que é a espinha dorsal do curso em que estão - e em questão: falo das pessoas do meu curso, Línguas, Literaturas e Culturas (Línguas e Literaturas Modernas, ainda quando entrei nele pela primeira vez), independentemente da variante escolhida... essas pessoas deviam, pelo menos, ter um mínimo interesse por literatura, julgo eu, ainda que mal, se calhar, mas deviam. E isto não é só poesia, está certo, mas é também, correcto? Ou não? Enfim, tendo uma predilecção por poesia, não descarto nem descuro nem desgosto da prosa. Gosto de ambas. E de escrita dramatúrgica, teatro, claro. Tudo. Não gosto é do que passa por ser literatura, e vejo toda a gente só a falar disso, como se a fosse. Falam do Harry Potter (da J.K. Rowling, aliás, ainda que nunca a refiram), do Dan Brown, do Miguel Sousa Tavares, como se isso fosse a verdadeira literatura, é possível, até, que nunca tenham lido nada que realmente valesse a pena. E isto é triste, é muito triste, para mim, pelo menos.
Tento falar com pessoas que vou conhecendo mas isso já nem é assunto que interesse, numa conversa. Não lhes interessa que tenha blogs ou cadernos, não estão interessados em ver os meus mais recentes textos, como outras pessoas, noutro tempo, no mesmo lugar, estiveram... as únicas pessoas que ainda vão escrevendo e editando (através de editoras online, estilo do it yourself, como a Lulu ou a EuEdito), escrevem, para ser directo, mal, com erros e sem coerência nem maturidade, ainda com um narcicismo muito vigoroso do qual não querem abdicar, por se recusarem à tal partilha edificante de textos, antes de os terem em formato livro. E, pronto, "estas" pessoas resumem-se a "esta" pessoa, um amigo de filosofia que, apesar de tudo, lê coisas boas, embora prefira falar de filmes, de drogas, de música, de mulheres, de carros, enfim... quase tudo, antes de se esgotar o assunto e falar de poesia.
Muito sinceramente, é possível que esse grupo a que pertenci fosse imaturo e infantil demais, talvez a nossa poesia de então ainda precisasse de crescer, se calhar alguns dos elementos desse quarteto original estejam melhor assim, evoluindo na sua individualidade de académicos e estudiosos, e desejo-lhes, com toda a honestidade, o melhor. Contudo, estes, que entraram agora, ainda estariam no "direito" de escrever e ler com a inocência que nos foi própria, com aquele encanto, a dádiva da poesia em conjunto, a maravilha de ler um poema novo de um amigo, a alegria de uma coisa nossa, individual e comum. Estariam no "direito" de não ser educados, maduros, formados pela escola e pela vida, de ainda se encantarem com o fazer poesia, com o ler poesia, sem análises, sem teorias do Bernstein ou do Adorno ou do Benjamin ou do Heidsieck ou do Alberto Pimenta ou do Steiner por trás, só as teorias do amor à arte, só a paixão pelas palavras, pelas imagens, pelas figuras de estilo, pela fluência dessa coisa maior da qual nos tornamos veículos. Claro que importam esses teóricos, esses linguistas, esses estudiosos, esses académicos, claro que sim, e não o digo com ironia, digo-o com franqueza, mas, na minha humilde perspectiva, demasiada instrução e teorização acaba por destruir o espírito "nobre" e "original" a que essa poesia despretensiosa se propõe. A própria Doris Lessing, no prefácio ao seu The Golden Notebook, alega ter desistido da escola com 14 anos, de achar que tinha perdido muito, numa fase da sua vida, e ter voltado a estudar, a frequentar seminários, leituras, apresentações, só para se aperceber que, afinal, estava a fazer melhor, sem toda aquela carga excessiva de teorias e de explicações académicas, que tudo aquilo era fastidioso, fatigante e, no fim de contas, não servia para nada. Enfim, estes jovens estavam em condições de, de uma forma limpa e revigorante, olharem para a poesia e escreverem a poesia, amarem-na, admirarem-na, não como coisa que criaram, mas como algo maior, que saiu deles, que passou por um processo de "filtragem", em que o "filtro" foram eles, autores do poema, poetas. É sobretudo isto que me dói.
Percebo que os meus antigos companheiros de poesia e de amizade já não estejam dispostos à minha forma "não-evoluida", imatura, infantil, estagnada, até, se quisermos, de ir fazendo poesia, mas estas novas pessoas não estão nesse caso e, no entanto, parecem velhos fora de tempo, a viver as suas vidas sem interesse, a ir às compras, a conversar acerca da Lady Gaga e da Katy Perry e de um sem-número de bandas de rock indie que não ficarão para a história, porque são todas, sem excepção, iguais entre si, a trabalhar para o curso "porque tem de ser"... mas ler, nada. Muito menos falar disso.
A namorada de um amigo, em jeito ofensivo, diz-lhe que ele vai ser "especialista em papéis", explicando de forma clara o que os jovens de hoje acham em relação ao nosso curso. Não é preciso amor a nada, nem gostar de ler nada. A única coisa que nos resta é aprender umas teorias, saber relacionar uns conceitos, ter pensamento lógico e abstracto e decorar umas regras linguísticas, saber fazer ensaios e recensões e teses. Porque um especialista em papéis não precisa de gostar de poesia.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

hm?

olha, sobretudo, obrigado pelas tardes, pelas noites, pelos almoços e pelos jantares, pela paciência, tantas vezes, em aturares tanta estupidez e tanta irascibilidade, obrigado pelo dinheiro "emprestado", pelos cremes, pelas pomadas, por partilhares um bocadinho da tua vida e o teu corpo, obrigado por vires ter a minha casa sempre que estive doente e não pude ir às aulas, obrigado por me fazeres rir e por me ouvires quando e sempre que estive mal e a vida custava e parecia que não valia a pena (às vezes ainda parece). muito obrigado por teres sido parcial em relação aos "amigos" da editora, por sempre teres tomado o meu partido, e, ainda por cima, não por uma parcialidade cega, mas por creres que a razão estava do meu lado. obrigado pela ajuda em trabalhos, pelo apoio e substancial força e motivação em relação ao que escrevo, obrigado por me teres convencido a trabalhar para que quatro poemas meus fossem publicados na Piolho, obrigado pelo carinho com que dormias abraçada a mim, obrigado pelo interesse pela música e pela literatura, obrigado por teres tentado fazer de mim uma pessoa melhor, mesmo que, agora, que olhamos para trás, percebamos que não foi da maneira correcta e que tanta coisa correu como não devia ter corrido.

quero muito que sejas feliz, algures, sempre, com uma pessoa boa e bonita e interessante que mereça tudo o que és e que tu mereças em tudo o que é, porque tu és uma criatura encantadora, e eu tive muita sorte, apesar de tudo, de poder ter feito parte de qualquer coisa em que metade eras tu.

terça-feira, dezembro 14, 2010

depois de toda uma tarde passada no hospital Curry Cabral (que se estenderá para a manhã de hoje):

HOSPITAL CURRY CABRAL

A Colien Honegger

Parecem as termas de Fellini, disse ela, a catalã
que não sabia nada dos hospitais
de Lisboa.

De facto, o chão fumava,
um vapor espesso subia-lhe pelas pernas
e acalorava os gatos.
E até um garnisé que por ali passeava em busca
das migalhas das visitas
cantou
desirmanado.

Mas era quase erótico o tom da sua voz
como a da vedeta italiana
desse filme barroco
caindo inocente da doença ambulante
levada por maqueiros gordos
e libidinosos.

As palmeiras derramavam um choro
no vento melancólico.
E ela a catalã, jovial e magra,
ia batendo palmas às aves embaraçadas,
e avançava a sorrir
pelas zonas infecto-contagiosas.
Mas não lhe era preciso aplaudir um tal cenário
de figurantes mudos e fantasmagóricos
com os seus roupões azuis
de sida
com os seus pijamas de cinza
e tuberculose.
Bastava-lhe olhar a direito ou fechar os olhos
e perguntar pelo Hotel Barcelona.

Mas ela preferiu tropeçar nos varões com soro
arrastados pelo verde do jardim
e passar rente a precipícios que deslizam deitados
à sombra da morte.

E é preciso amar e partir depressa.
Ou atordoar-se com os perigosos jogos do contágio.
Eu respiro a calma que a desgraça me oferece
entre galinhas-da-índia
a encurtar caminho
nesse antigo lugar de mulheres da vida
arrependidas.

Normalmente vou só e não me engano.
A amiga catalã é um devaneio
numa rambla de encontros tenebrosos
com outra espécie de morte.

Tantas vezes passei
e o poema não veio ao meu encontro.
Tantas vezes devorei este fumo quente e sensual
que começa por lamber-me as calças
e faz de mim um animal em erecção precoce.
Belas termas, estas, amiga tão distante,
nas tuas quimeras musicais
no teu regaço de coloridas risas de passagem.

Passa comigo e pede um copo de água
ou de cólera, como diz o brasileiro,
àquele rapaz com a morte a prazo.
A menina do filme, essa perversa inocente
Cardinale, fica-te tão bem,
diria ele,
esse jovem director de espectros
que te tira o chapéu
e deixa ver um quisto inquietante
na cabeça pelada de trapezista mortal.
Traz contigo mais música.
E passeia comigo entre pavões rubros-azuis
e corpos que rolam
sentados ou jacentes e avançam
para a saída
da vida.


Armando Silva Carvalho, Lisboas, Lisboa, Quetzal, 2000; ed. ut. O que Foi Passado a Limpo, Lisboa, Assírio e Alvim, 2007; in Poemas com Cinema (org.: Frias, Joana Matos; Queirós, Luís Miguel; Martelo, Rosa Maria), Lisboa, Assírio & Alvim, 2010


NB: por favor, notem, com agrado, ou não, que Armando da Silva Carvalho provém do mesmo concelho que este vosso humilde amigo: Óbidos.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

dia de frequência de Leituras Orientadas


Com mais um screenshot de Silent Hill 2 a ilustrar.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

such a nice sunday afternoon


Pôr assim umas coisitas de vez em quando, para não cuidarem que faleci, ou isso.

domingo, novembro 14, 2010

grão-de-bico

uma bolsinha numa gaveta não é apenas uma bolsinha numa gaveta, nem um tupperware com massa no frigorífico se resume apenas a isso, ou um cheiro ou uma mancha num lençol, ou vagas memórias de corpos a amarem-se num colchão estreito, no chão mal envernizado da sala; nem tampouco o caminho de todos os dias é o caminho de todos os dias, passando pelos cafés e pela estação dos comboios, se sei que tocámos em tudo isso e aí permanecemos numa eternidade de sentidos, só que, agora, isso acabou-se e o que resta são só fragmentos de memórias, como estilhaços de espelhos.

e tudo aguça uma dor imensa que não se cala, mesmo que eu queira.

sexta-feira, novembro 12, 2010

apneia para uma barracuda




daqui a uns anos, quando talvez te souber com outra pessoa, é possível que queira desaparecer ainda mais do que já quero hoje, só que vivemos em sociedade e, se queremos parecer sãos, não podemos estar magoados nunca. e talvez tenha de fingir coisas falsas. mas o meu coração há-de estar morto à mesma, digo eu, para todos os que estiverem para aí e que factualmente acreditem na verdade absoluta e concreta destas coisas do amor.

terça-feira, novembro 09, 2010

à minha querida Oliveira Martins (de facto querida, sem ironias)

Não é que discorde de tudo o que é dito nas aulas da professora (doutora, para quem fizer mesmo muita questão) Isabel Oliveira Martins, mas, enfim, há uma coisa que me irrita bastante, quando fala dos "cowboys", com toda a propriedade, é certo, que é pôr-se a falar do Clint Eastwood e do Lucky Luke como imagens míticas do oeste selvagem. Até aqui, tudo bem, são-no, de facto... agora, convém esclarecer uma coisa: são imagens míticas do oeste americano, sim, mas criadas e popularizadas por europeus. Se quiser referir-se a John Wayne, concordo plenamente, ou, enfim, aos filmes do velho oeste de, por exemplo, Sam Peckinpah, sim, tudo bem... mas falar sempre do Clint Eastwood e do Lucky Luke, não, a sério.
Também é verdade que o Clint Eastwood fez uns westerns dele mesmo, e poder-se-ia argumentar que esses filmes são "americanos", mas passa-se que o próprio Eastwood alega ter tirado toda a inspiração, para os filmes, do que aprendeu com Sergio Leone. E Leone, isto é bom que se saiba, dizia que queria mesmo "europeízar" os westerns, quase num acto de vingança contra a indústria cinematográfica norte-americana, por terem "americanizado" imagética clássica europeia nos filmes.
Já Lucky Luke trata-se de uma personagem de banda-desenhada franco-belga, criada pelo belga Morris (Maurice de Bevere, para quem estiver interessado) que, embora pegando nalgumas imagens tiradas dos filmes clássicos norte-americanos, nomeadamente a do cowboy/pistoleiro solitário, que parte, no fim de cada aventura, em direcção ao pôr-do-sol, assobiando uma melodia, montado no seu cavalo, tem muito pouco de americano... são notórios o humor e sarcasmo próprios da banda-desenhada europeia, particularmente a franco-belga, que estão longe de caracterizar os cowboys típicos dos westerns tradicionais.
Portanto, o meu ponto de vista é apenas o de que falar destas duas personagens (Clint Eastwood, aqui, como personagem, claramente tirada da trilogia italiana que o popularizou, mais do que os seus próprios filmes, anos mais tarde) é errado, porque isso não retrata a visão norte-americana deles mesmos. E digo-o aqui porque, enfim, nunca tenho oportunidade para o fazer nas aulas, e já venho com esta vontade entalada há uns semestres valentes.

quinta-feira, outubro 28, 2010

oh, pá, a sério...

Um dia planto uma bomba na sede da Nicola (ou na casa do(s) "criativo(s)" que teve(tiveram) a brilhante ideia das "frases Nicola". Hoje é o dia.

Juro... não há pachorra, já, para tanta idiotice em pacotinhos de açúcar, e gente a citar aquelas baboseiras à parva...

domingo, outubro 24, 2010

a propósito de um sem-número de coisas:

É preciso dizer-se que este blog não está morto. Eu é que não tenho tido pachorra (e o termo é mesmo esse, pachorra, não é falta de tempo, nem incapacidade, nem motivos afins) para escrever nada aqui. Tenho tentado escrever nos outros blogs e nos cadernos, mas mesmo isso tem sido bastante forçado, não sabendo, eu, a razão ou razões para tal. Eventualmente deve-se a um desentendimento com amigos, na consequência de uma tentativa gorada de publicar o meu livro (físico) através da editora deles, e de uma conversa com uma dessas pessoas que veio no seguimento desse facto, em que a pessoa me dizia coisas que me deixaram a pensar seriamente (provavelmente mais do que devia) nas minhas rotinas de escrita, na minha escrita em si e numa série de rituais, processos e relações advindos disso. Por isso - também -tenho escrito menos, mas é possível que pesem ainda factos como andar, ainda por cima, a ler menos, mais cansado, por causa da faculdade e de um ritmo novo (mudei de casa, este semestre), ao qual ainda não me habituei, por causa de mudanças de cadeiras à última hora, não ter ninguém a ler-me, ou a conversar comigo acerca destas coisas, ter um crédito estudante para tratar, sem o qual ando aqui sem dinheiro e cheio das preocupações estupidamente práticas que surgem daí, e etc.

Mas, enfim, no meio disto tudo, há uma coisa, pelo menos, que vale a pena. Existe esta pessoa que me tem, e que me vai acompanhando e fazendo com que as coisas sejam boas. E, aliás, este texto, ainda que com um início em forma de lamúria, é para ela. Porque ela é linda e mantém-me numa sanidade ao longo disto, numa serenidade apaixonada, que nunca ninguém me soube dar. Por todas essas coisas, sou cada dia mais Eu, juntamente com aquilo que é ela, e somos juntos uma outra coisa, melhor, mais capaz, a evoluir todos os dias. Isto é mais um obrigado, do que uma queixa. Sabe que me tens, só tu, sempre, se quiseres que seja para sempre, e cada dia mais e mais, dentro do sempre, se o quiseres e se mo pedires.

Amo-te. Mesmo muito.

quinta-feira, agosto 12, 2010

éapmidmv

(tudo o que faço, faço-o por tua causa, e tudo o que faço por tua causa, faço-o por minha causa.)

quinta-feira, julho 29, 2010

a propósito da amizade que retribuo, ou não

tenho de pedir desculpa a alguns amigos. tenho mesmo. mas é que também não tenho realmente paciência para os aturar todas as noites, quando todas as noites estou mal por causa da(s) mesma(s) coisa(s)... e é chato, é mesmo muito chato, muito irritante, mesmo, não poder falar disto com ninguém e ter de estar mal para eles, não aguentar uma noite inteira a ouvir pessoas a assobiar ao meu lado, a falar de banalidades, com o nobre e despretensioso objectivo de me distrairem... essas coisas nunca funcionaram comigo, esses intuitos de "puxar para cima". quando estou mal, estou mal, não estou mal a querer fingir que estou bem. e, sim, quero estar com pessoas, mas pessoas que até me podem ignorar, só não quero estar ali fisicamente sozinho, não gosto mesmo que digam piadas para me animar, isso só me deixa pior, porque não consigo rir, e dói-me ainda mais quando me apercebo disso. quero uma pequena bolsa de depressão e angústia partilhadas, à minha volta, é isso que quero; quero os meus amigos bem, mas a deixarem-me estar mal, a perceberem que é mesmo assim que estou, por mais que queira tê-los ali à minha beira.

de novo, desculpem-me. a sério...

terça-feira, julho 27, 2010

à falta de outro sítio onde pôr isto

por favor não te vás embora de encontro aos becos levando uma mulher pela mão. por favor, fica comigo, tenho frio, tenho uma flor de lótus, o coração a rebentar-me nas mãos como se idêntico a uma flor de lótus atrasada, a ter de morrer por causa de uma idiossincracia anacrónica, como se existisse mas não devesse existir.
come lá o meu coração e eu poderei imaginar uma imagem bíblica para isso.

segunda-feira, julho 26, 2010

adenda

(É tão possível que esteja - que seja - errado. Mas tudo o que digo, digo-o porque o sinto. E essa é a maior verdade que posso dar a quem me conhece, a quem me ouve, a quem me lê.)

domingo, julho 25, 2010

monólogo a pedido

Tenho uma pessoa muito especial (se não a pessoa mais especial) que me pediu isto: que escrevesse no meu blog sobre as minhas teorias ou sobre literatura. Ao certo, sobre o quê? As minhas teorias são desconexas e não fazem sentido, sem ser para mim. Nem sequer posso dizer, em boa verdade, que tenho teorias.
As minhas teorias são numa veia de "anti-teoria", isto é, abomino quem pensa por todos, quem presume e pretende e deseja pensar por todos, oferecer uma verdade universal embrulhada em boas intenções e um intuito qualquer de evolução mental. A única teoria, que tenho, ou, pelo menos, a única que sigo, é a de que devemos ser o que somos, que devemos parar de tentar explicar o que sentimos às luzes tão desfocadas de um conhecimento científico e psicológico/psiquiátrico, tudo sempre sendo refutado dia após dia. Somos só um composto de coisas, depende de nós se lhes queremos chamar doenças ou cartilagens ou nervos, se lhes chamamos alma, genuidade, características, carácter, ser, propriedade. Somos isto: existimos, sentimos. O que somos é, em última análise, o que sentimos, somos todos muito egoístas, a esconder isso porque a sociedade ocidental milenar e patriarcal e judaico-cristã e platónica e socrática nos ensina: "o egoísmo é mau". E talvez seja, mas, vistas bem as coisas, somos todos egoístas. A pedir que nos deixem em paz, a não saber deixar os outros em paz, numa demanda quase absurda, de impossível, em busca da nossa própria felicidade e auto-preservação. Mantemos um altruísmo de causas sociais, de abnegação, para esconder um egoísmo último que carregamos cá dentro. E somos altruístas porque alguém nos prometeu o céu ou uma recompensa por esse altruísmo.
Se a nossa genuidade é a única coisa que temos, e a nossa genuidade e a nossa integridade comportam um egoísmo, porque não assumir esse mesmo comportamento? Porque, depois, enfim, recebemos o comportamento de volta. Só recebemos o que damos. Pedimos muito e às vezes não damos nada, portanto, ninguém nos devolve o que não demos. Não há o que devolver. Mas devíamos, ao menos, assumir o nosso egocentrismo inerente a ser humano. A nossa necessidade de ser, de ser tudo, de ser o centro de tudo. Preservamo-nos, apesar de tudo, e vamos desaprendendo uma inocência infantil que nos deixava, enfim, vulneráveis às armadilhas de viver: ao amor, à entrega, ao compromisso, à responsabilidade. E a vida deixa de ter piada, porque complicamos as coisas que à partida seriam simples. O amor, no seu estado puro, é simples. Mas nós não aguentamos. Não aguentamos, porque complicamos. Não nos basta sentir, temos que explicar, temos que sobreviver, que decidir que o amor não chega, que já não somos crianças, que o mundo não é um lugar para crianças.

Enquanto eu for uma criança o mundo há-de ter que ter um espaço para mim, dê lá por onde der.

sexta-feira, julho 16, 2010

\m/_



Queens of the Stone Age - In My Head

quarta-feira, julho 14, 2010

Linoleum and Love

They were older then, like their kitchen floor,
linoleum and love worn together more
by each treading heart. They were never sure:
had they found happiness, or simply a way to endure?

My grandfather’s faithfulness was tough and taciturn.
Builder and fisherman, he did not learn
patience, except for fish. He’s hook his fingers in the air,
alive with cigarettes, and catch its burning as ashes in his hair.

His eyes were full of stories we never dared
disbelieve. Looking back, I think he cared,
at least as best he could,
his hands hard with working over water and wood.

Every time we visited, my grandmother gave
us scraps. “For the dogs,” she’d say.
Staying in love; knowing how to save,
make a little go a long way.

Such a brave economy of emotion.
it was the best lesson my grandmother taught,
something we might lean on,
knowing how she’d fought

her way into believing. Her rough
knuckled rosary, her tea-towel with its thin-skinned pride,
had to be, for her, hope enough
until at last: a knocking at the door, a veil drawn aside.


Noel Rowe, Next to Nothing, Vagabond Press, Sydney, 2004

sábado, julho 10, 2010

cede-se

vida. a quem quer que seja que a queira vir buscar.

segunda-feira, junho 14, 2010

luminária

gostava de agradecer a uma pessoa por estar assim na minha vida, sem acabar por expôr nada de mais, sem dizer nomes nem nada dessas coisas. fazê-lo publicamente, onde mais pessoas leiam e saibam que és o melhor do mundo. com toda a lamechice e pinderiquice possíveis.

domingo, junho 13, 2010

domingo, maio 23, 2010

para quê ir ao Rock In Rio,

se se mora em Chelas e se ouvem todos os concertos a partir de casa?

sábado, maio 15, 2010

Google Earth

The poet’s eye, in fine frenzy rolling,
Doth glance from heaven to earth, from earth to heaven.
Theseus from A Midsummer Night’s Dream (Act V, Scene 1) by William Shakespeare


We started in Africa, the world at our fingertips,
dropped in on your house in Zimbabwe; threading
our way north out of Harare into the suburbs,
magnifying the streets—the forms of things unknown,
till we spotted your mum’s white Mercedes parked
in the driveway; seeming—more strange than true,
the three of us huddled round a monitor in Streatham,
you pointed out the swimming pool and stables.
We whizzed out, looking down on our blue planet,
then like gods—zoomed in towards Ireland—
taking the road west from Cork to Kinsale,
following the Bandon river through Innishannon,
turning off and leapfrogging over farms
to find our home framed in fields of barley;
enlarged the display to see our sycamore’s leaves
waving back. Then with the touch of a button,
we were smack bang in Central London,
tracing our footsteps earlier in the day, walking
the wobbly bridge between St Paul’s and Tate Modern;
the London Eye staring majestically over the Thames.
South through Brixton into Streatham—
one sees more devils than vast hell can hold
the blank expressions of millions of roofs gazing
squarely up at us, while we made our way down
the avenue, as if we were trying to sneak up
on ourselves; till there we were right outside the door:
the lunatic, the lover and the poet—peeping through
the computer screen like a window to our souls.


Adam Wyeth in Landing Places: Immigrant Poets in Ireland, Dedalus Press, Dublin, 2010

sexta-feira, maio 14, 2010

tenho a mulher mais linda do mundo deitada ao meu lado e nunca vai conseguir saber como é tão linda (também) quando dorme.

quinta-feira, maio 13, 2010

Oh as Casas as Casas as Casas

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas


Ruy Belo, in Todos os Poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000

alguma tristeza e desencanto com isto, que resumirei numa frase aparentemente positiva:

ao menos já não vou mesmo ter de conviver com o Nuno DUMPSTER.

quarta-feira, maio 05, 2010

La femme de trente ans

Amarás
o meu nariz
brilhante
as minhas estrias
os meus pontos pretos
os meus textos
os meus achaques
e as minhas manias
e as minhas gatas
de solteirona
ou não me amarás

Adília Lopes, in Obra, Mariposa Azual, Lisboa, 2000

segunda-feira, maio 03, 2010

haja gente que fique feliz!

"Tu e a Mariana são a coisa mais poética que eu já vi."
- um Amigo

quinta-feira, abril 29, 2010

"faz um post mais animador no blog", com direito a copy-paste.

Manifestação de Vida says:
*eu amo-teee
*nao sei dizer mais nada, desculpa
Manifestação de... Coisa Boa? says:
*dizes-me a melhor coisa do mundo
*e ainda pedes desculpa
*:\
*vou colar esta conversa no blog e fazer um post

quinta-feira, abril 22, 2010

chego a casa e quero dormir. preciso que o tempo não passe, que seja sempre amanhã e que amanhã seja melhor que hoje, ou que hoje nem sequer exista. não consigo dormir. pelo menos não consigo dormir tanto quanto queria.

sábado, abril 17, 2010

há dias em que isto já só ia lá assim.


Eels - Novocaine for the Soul

notificação:

vou fumar à chuva. que enquanto fumo à chuva não penso noutras coisas. bom, bom, era mesmo morrer afogado.
queria que alguém me amasse hoje à noite. queria mesmo muito chegar ao trinca e trazer alguém para casa, para fodermos. mas a verdade é que não queria mesmo nada disso.

quero uma pessoa só, com toda a lamechice e romantismo piegas possíveis. há uma pessoa que me tem, mesmo que não saiba, não queira saber, não possa saber. e o resto não me importa.

falta de paciência #?

"ai, filho, tens de fazer qualquer coisa em relação a essa barba, que já me vieram dizer que parece que há um bandido ou um vadio a entrar-nos na casa!"
- Dona Maria, natural do Pico, Açores, reformada

sexta-feira, abril 16, 2010

insónia com ridículo pelo meio, se bem que algumas coisas boas, também.

Tenho de aprender um certo respeito por alguém que me diz "não posso", porque não pode, mesmo. E essas coisas não se controlam, mesmo que fossem, não sou cá tipo de controlar seja o que fôr. Tenho, no entanto, um problema com isso, que é o facto de não poder entender esse conceito, uma vez que, desde há demasiado tempo a esta parte, me convenci de que posso tudo o que me apetecer, que devo tudo, que tenho que tudo o que me apetece, tudo o que quero ou nada do que quero. E, convenhamos, se fosse outra pessoa qualquer, e não esta pessoa, eu nem sequer "tinha" de aprender um certo respeito. Era para o lado que eu dormia melhor (usualmente durmo melhor voltado para o lado direito). Hoje, nem melhor, nem pior. Tenho a cabeça e - usando uma imagem que é das poucas que não sinto, quando as digo - o peito cheios de silvados metafóricos e encruzilhadas imagéticas e essas coisas. Já há demasiado tempo que não sentia uma coisa destas por uma pessoa. Disse-lhe coisas tão ridículas, tão impensadas, tão... pindéricas, e, pior ainda, ditas ali, em primeira mão, coisas que, em vinte e seis anos, ninguém mais ouvira antes... escrevi um texto, e tudo...

Quero mesmo muito que isto tudo corra bem e não escondo que o correr bem, do meu ponto de vista, implica coisas que sei serem quase impossíveis.

quinta-feira, abril 15, 2010

. . .

eu já sei mais ou menos que sou uma pessoa confusa e confundida e de vez em quando sem princípios ou pelo menos de vez em quando sem princípios aparentes, mas magoo-me como qualquer outro indivíduo "normal" (vistas bem as coisas, com tanto queixume, até me magoo mais - queixo-me mais, vá!).

eu não me devia encantar tanto, não me podia encantar tanto, mas a verdade é que me estou mais é a cagar para isso. e acabo por me meter em situações bastante estúpidas em que nem sequer consigo ser absolutamente sincero e o meu coração é um animal assustado para aqui a correr entre costelas envelhecidas.

não sei parar-me nisto.

terceiro post

eu tinha prometido que não escrevia isto, mas acabei por escrever à mesma.

quarta-feira, abril 14, 2010

ainda a propósito de uma tal albicastrense onírica

Acontece que ter estado em contacto com esta criatura me fez ter vontade de ouvir coisas que não ouvia há uns oito anos, para ser simpático (nomeadamente, essa senhora genial, que é a Nina Simone - e não digo era, porque, nestas coisas da arte, acredito piamente que É). E, enfim, até é possível que a tarde de sexta-feira tenha sido uma coisa demasiado esporádica; esporádica e "cordial" (quase de pena por mim) o suficiente, para nunca mais ter repetição. Mas eu queria mesmo que tivesse repetição, aí está... e, pronto, se entra um início de encanto em cena - que entra, realmente, e pesa, também -, não tira mérito nenhum ao facto de querer mesmo conhecer melhor as pessoas, perceber se afinal é encanto ou é só um sentimento próprio da amizade que poderá vir a existir. Seja lá o que for, tenho mesmo alguma necessidade dessa criatura e custa-me aparecer na faculdade com o pensamento nisso, ficar triste se passa um dia e não a vislumbrei, sequer. Ter cds na mala, para entregar, e tudo, como um menino bonito.

domingo, abril 11, 2010

Mariana, a albicastrense Gémeos

por um lado, ainda bem, por outro, ainda mal, que não tenho o número da Mariana.
porque conheci a Mariana ontem. e a Mariana é bonita. e a Mariana toca violino. e a Mariana gosta de ler. e a Mariana tem um sorriso lindo. e a Mariana gosta de gatos e de cães. e a Mariana é interessante. e a Mariana é bonita.
mas, sobretudo, porque a Mariana é a Mariana. e porque, esta noite, já bebi demais. e queria que a Mariana soubesse isto tudo. e já lhe tinha mandado tantas mensagens a dizer as mesmas coisas, repetidamente, até a Mariana ter medo de mim na segunda-feira.

quinta-feira, abril 08, 2010

quarta-feira, abril 07, 2010

tenho um grandessíssimo prazer quando as pessoas me ignoram só porque lhes disse coisas que, provavelmente, não devia ter dito. *

não sei se o problema é meu, acho que não, sinceramente. há mais do que um problema, decerto... e o meu é só um de muitos. não sou, garantidamente, um belíssimo homem, mas custa-me mesmo ver tanto tipo bastante mais feio e desinteressante com mulheres realmente bonitas. só posso presumir que esses queridos senhores sejam, ou muito bons na cama, ou possuidores de um sentido de humor acima da média. como muitos deles não parecem, de todo, corresponder à opção do sentido de humor, só me resta calcular e inferir que sejam génios do prazer sexual. eu lá vou fazendo as minhas coisas, encantando-me com as minhas pessoas, mesmo que me fujam, tentando evitar-me como à peste ou qualquer epidemia desse género pandémico. e vou continuar a cometer sempre os mesmos erros, até que alguém se deixe encantar também comigo e com estas coisas estúpidas todas, que me compõem. e até estou disposto a insistir com uma ou outra pessoa, que apareça, e me faça crer que, no fundo, até vale a pena um certo trabalho emocional mais árduo.

e até pode ser que tenha sido só hoje. e amanhã uma tal criatura de sonho já se digne a falar comigo e cumprimentar-me com um beijo, em vez do aperto de mão que me facultou no dia corrente.

* - esta frase pretende ser irónica.

sexta-feira, março 26, 2010

pífaro de plástico

se não tivesse tanta vontade estúpida e incontrolável de ter alguém, estava bem era sozinho. porra.

quinta-feira, março 25, 2010

paráfrases anichadas numa coisa que é coisa

Ao menos a Sofia acha-me bonito e, como se isso não bastasse, ainda alega que fico SEXY de blazer. Upa!

segunda-feira, março 22, 2010

coisinha mais ou menos ridícula (ridícula, pronto)

eventualmente não seria nada bom que eu te escrevesse uma carta a dizer que me estou a apaixonar por ti (que é como quem diz estou apaixonado por ti), pois não?

Jump Leads

As the eggbeater spy in the sky flickered overhead, the TV developed a facial tic
Or as it turned out, the protesters had handcuffed themselves to the studio lights.
Muffled off-camera, shouts of No. As I tried to lip-read the talking head
An arms cache came up, magazines laid out like a tray of wedding rings.
The bomb-disposal expert whose face was in shadow for security reasons

Had started very young by taking a torch apart at Christmas to see what made it tick.
Everything went dark. The killers escaped in a red Fiesta according to the sources.
Talking, said the Bishop, is better than killing. Just before the Weather
The victim is his wedding photograph. He's been spattered with confetti.

Ciarán Carson, Belfast Confetti, Wake Forest University Press, Winston-Salem, 1989

quinta-feira, março 18, 2010

Lunchtime

At lunchtime on September 16, 2001,
I squatted on the grass of the riverbank
and looked across at rubber tires
shining here and there on the other side.
If suddenly a stranger
had come up from behind me
and whispered in my ear,
“Today’s May 9, 1961, right?”
I couldn’t have denied it.
The way you do when you finish a meal
without messing your hands,
I felt that day
as if I could fuse easily
with anything, however hard.
Things like the thin body
of a little dog running in circles and sniffing the grass,
a dark-gray cloud skimming the surface of the water,
and even
phrases of poetry I’d yet to read
melted like butter
grew into a creature with no arms or legs
and quietly set about swallowing the earth.
I imagined the scene,
my mouth full
of a rice-ball I’d bought
at the boxed-lunch store across from the station,
the cheapest one of all.


Kiji Kutani, trad. Juliet Winters Carpet, in Day and Night, Yamaguichi, Cidade de Yamaguichi, 2005

sexta-feira, março 12, 2010

revelações num dia em que não me apeteceu ir a Leituras Orientadas mas acabei por ir na mesma

À saída da aula de Literatura Norte-Americana Contemporânea, noto uma coisa preta no chão: era o passe Lisboa Viva Sub-23 de alguém. Viro-o, e, enfim, pertencia a Mafalda Correia. Ora, isto não significa nada, entenda-se, assim, só. Mas Mafalda Correia, constatei-o pela foto, trata-se da criatura semi-élfica por quem nutro, desde o reingresso no curso, um fascínio incrível. E, devido a esse percalço do destino (ou qualquer coisa em que se acredite, já que eu, pelo menos, no destino não creio), não só fiquei a saber o nome da mulher - com as devidas ressalvas, já que o cartão é sub-23 -, como já a abordei para lhe indicar que tinha deixado o mesmo na portaria, nos perdidos e achados.

Life moves in misterious ways.

segunda-feira, março 08, 2010

Mohammed trains for the Beijing Olympics, 2008

In the 69-kilogram-weight class,
the Bulgarian, Boevski, is the world-
record holder. He cannot be beaten.
At least, not by Sawara Mohammed.
Mohammed, at 26, has shoveled cement
longer than he cares to remember. In Arbil,
in Kurdish northern Iraq, he strains hard
to lift the barbell with its heavy plates,
round as the wheels of chariots—then, muscles give
and the wheels bounce in dust before him. No,
he cannot defeat the Bulgarian.

The problem is in lifting weight over distance.
It isn’t a matter of iron, or of will.
Boevski’s records, in Beijing, will go
unnoticed, because Mohammed is training now
to lift the city of Arbil, with its people;
his quadriceps and posterior chain
straining, the muscles tremoring to lift
the Euphrates and Tigris both, mountains
of the north, deserts of the west, Basra,
Karbala, Ramadi, Tikrit, Mosul—
three decades of war and the constant suffering
of millions—this is what Sawara lifts,
and no matter what effort he makes, he will fail
completely, and the people will love him for it.

Brian Turner, Talk The Guns, Alice James Books, Farmington, ME, 2010

domingo, março 07, 2010

e é isto...

Aparente e infelizmente, Mark Linkous, dos Sparklehorse, suicidou-se ontem, dia 6...

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sexta-feira, março 05, 2010

rocambolescas existências

Esta chuva é um fastio de alma, mas ao menos tenho colegas de Cultura Norte-Americana Contemporânea que me deixam boquiaberto quando, ao abrirem o fecho do seu casaco impermeável, deixam à vista um aprazível e abundante par de seios que, de outra forma, passaria despercebido. E acabam por salvar uma aula eventualmente aborrecida.

N.B.: A aula também não teria sido assim tão má... e as protuberâncias mamárias alheias, per se, eram até grandes demais para a minha sensibilidade estética. Mas é que a minha testosterona já se ressente de me encontrar há "demasiado" tempo sem ninguém especial a acompanhar o meu percurso existencial.

quarta-feira, março 03, 2010

uma pertinente questão:

será que o B(ernardo) Fachada lava o cabelo?

segunda-feira, março 01, 2010

em certos dias não há é pachorra

Gostava que as coisas fossem do seguinte modo: eu encontro uma rapariga bonita. Às vezes muito bonita, mas isso não vem ao caso. Acerco-me. Digo-lhe: "és bonita, gosto de ti" e o que devia suceder em seguida era essa pessoa apaixonar-se perdidamente por mim, que dizer qualquer coisa como "és muito bonita" fosse o gatilho de uma paixão avassaladora, que não terminasse nunca, e com direito a conversas sobre James Joyce e Herberto Helder e, obviamente, Boris Vian, noite dentro, com direito a sexo conforme nos apetecesse, a pequenos-almoços em pequenos cafés que só duas ou três pessoas conhecessem, a viagens de autocarro e comboio por esse país fora - porra, por esse mundo fora! E essa pessoa também escrevia e líamo-nos e admirávamo-nos um com o outro, éramos um alimento mútuo que não se esgotava, éramos uma espécie de energia alternativa existencial um para o outro.

Mas, infelizmente, se digo a alguém "és muito bonita", o mais certo é a pessoa assustar-se. Pelo menos há-de estar ocupada com um tipo qualquer que nunca sonhou nada disto para eles os dois, sem sequer a conhecer de lado nenhum.

domingo, fevereiro 21, 2010

fim de noite com western e resident evil 4

estou cansado. gasto. existencialmente e não só.

por isso vou acabar a minha noite a ver Sergio Leone, e depois vou matar hordas de espanhóis virtuais poligonizados, infectados com uma praga insectóide milenar.

sábado, fevereiro 20, 2010

terça-feira, fevereiro 16, 2010

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

citações parvas número... olha, que se lixe.

(ainda em torno do sensível tema "Pedro e os sorrisos dos outros")

- que é que achas disto, afinal?
- disto, o quê?
- disto... desta gaja, por exemplo. não é tão bonita?
- não se devia rir.
- credo... as pessoas ficam mais bonitas a sorrir, nem toda a gente tem esse teu ar macambúzio, sabes?
- que se foda. há pessoas que têm sorrisos feios. há gente que não devia rir. nunca.
- és uma merda.
- e tu não és melhor, que só lhe estás a olhar para as mamas.
- e não são boas?!
- a outra, ao lado, tem as mãos bonitas.
- és uma merda.
- pois sou.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

novas crónicas de um recém-fumador #3

Hoje, no meu primeiro dia de regresso às aulas, furtaram-me logo um maço de tabaco e o meu querido isqueiro da Cricket, que já me acompanhava desde o início das minhas actividades enquanto ser que maltrata o seu próprio pulmão. Não dei por nada e pondero se talvez os tenha apenas perdido ou negligenciado em cima de uma mesa, ou algo do género.

N.A.: Lamentavelmente, após ter andado a espalhar falsos testemunhos e acusar anónimos de cometerem roubos, convém esclarecer que, na verdade, o dito conjunto de maço e isqueiro tinha ficado olvidado sobre uma das mesas da esplanada, sendo que, passadas duas horas, quando passo pelo mesmo sítio, ainda os vou encontrar. O maço já inutilizado pela chuva (salvei três cigarros, dos doze ou treze que ainda tinha), e o isqueiro completamente molhado. O isqueiro, assim que seco, retomou a sua funcionalidade normal.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

novas crónicas de um recém-fumador #2

Na minha qualidade de recém-fumador que começou nessa actividade não por pressão social/de pares/seja o que fôr, não por experimentação, não por moda (nos tempos que correm vai sendo tudo, menos uma moda), mas apenas porque uma querida criatura do sexo feminino me deixou, sejamos claros, na merda (e preferindo fumar a cortar-me, lá entrei no mundo maravilhoso do tabagismo), dou-me ao luxo de só fumar o que gosto. Ou seja, vou fumando Lucky Strike e, ocasionalmente, Camel, à falta dos primeiros. Sou muito esquisito e picuinhas com o tabaco, é certo. O SG Ventil não é mau, mas acho demasiado suave, não me sabe a nada, para além de que se consome num instante - como se não bastasse já ser menos um quarto do que um cigarro "normal", a porcaria do papel arde num ápice e, se nos distraímos, só o ar à nossa volta já nos fumou meio cigarro; o Português (Suave, que ainda sou do tempo disso assim) faz-me catarro; o Marlboro sabe mal, pelo menos mal para o que se paga por um maço; o Chesterfield seca-me a língua; o Águia é INTRAGÁVEL; o L&M é ela por ela com o Marlboro, para mim, em termos de sabor; o Davidoff não consigo não achar que é tabaco de fascista, o que, por si só, me faz nem querer experimentar; o Pall Mall, enfim, até pode ser o tabaco preferido do Phillip K. Dick, do Kurt Vonnegut, e assim, tudo gente de que gosto, mas não consigo achar grande piada; e por aí em diante.
Mas o que me irrita mesmo é o tabaco com sabores. Todos estes que disse, por mais que não goste, até tolero (tirando o Davidoff), mas, eh, pá... tabaco de sabores?! Para mim, o tabaco é para saber a tabaco. Se eu quero sentir o sabor do chocolate, compro chocolate. Ou do caramelo, ou de morango, ou seja do que fôr. Deixo até um repto para todas as pessoas que, por esse país fora, andam de Black Devil na boca, espalhando o seu cheiro a chocolate atabacado (que cheira, convenhamos, bastante mal): se querem tanto ter um cigarro na boca que saiba a chocolate, comprem daqueles maços de cigarros de chocolate, para as crianças. Para além de tudo o mais, sai mais barato.

domingo, janeiro 31, 2010

novas crónicas de um recém-fumador #1

Nunca me lembro de ter tido grande coragem para abordar as mulheres bonitas acerca de quem escrevo noites inteiras, nos cadernos. Penso sempre "ai, se fosse há uns anos atrás...!", como se, de facto, há uns anos atrás, tivesse tido a coragem de me acercar delas e perguntar-lhes sequer os nomes. Empregadas de balcão, raparigas em bares, é sempre a mesma coisa. Fico só a olhar de vez em quando, a desejar acabar a noite com a cabeça entre as suas pernas, ou algo do género. E vou fumando muito, no intervalo existencial de tudo isso, quando fico sozinho noites inteiras.
O mais triste é quando me levanto e ouço uma dessas criaturas alegar "este rapaz vai-se embora, por isso também já podemos ir". É o que ganho, por passar a noite toda a ouvir música no leitor de mp3, com os auscultadores a abafar-me de todo o ruído das vidas à minha volta.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

saltar de felicidade


Foto tirada no centro comercial Vivaci de Caldas da Raínha, de onde, saiba-se, o filho de alguém saltou de felicidade de um andar para outro, estando em coma no hospital. E, sim, isto ainda continua lá.

terça-feira, janeiro 12, 2010

um Lucky Strike em cima de um iogurte de ananás não é coisa que eu aconselhe. se bem que também pudesse ter sido do frio estúpido que estava na rua, e de eu ter saído sem casaco.

terça-feira, janeiro 05, 2010

(pois!)

preciso realmente de aprender a desaprender o amor desta forma meio doentia e doente.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

quinta-feira, dezembro 31, 2009

citações de um caderno em noite de vidros na garganta

"E se eu a matasse
odiavas-me mais
do que a Amas?"


(sim)

Syrinx, Ficção Pastoral (XVI)

Podes pegar em mim, pesar-me na balança
do sim e não, medir-me às polegadas a bondade;
ainda eu guardo o coração em sítio seco
e fresco, e longe de palavras.
E agrada-me estar só, na mais pequena cela
de uma prisão estéril entre os montes,
toda a noite a cantar contra a janela
donde se avistam outras grades iguais.
Podes até dizer (mas não as dizes)
as engraçadas frases em que voas
por distantes colinas, espantadas
de tão solene e nova madrugada;
e trazer-me água fresca, que me enrolo
em mim como um novelo e nem sequer
me movo quando o monstro inexplicável
com as suas garras rasga o meu lençol.


António Franco Alexandre, Quatro caprichos, Assírio & Alvim, Lisboa, 1999

segunda-feira, dezembro 28, 2009

este blog já está há demasiado tempo sem Sonic Youth. Ha ha!


Sonic Youth - Radical Adults Lick Godhead Style

sexta-feira, dezembro 25, 2009

quarta-feira, dezembro 16, 2009

senhor dançarino




que me presenteou com uma dança infindável (se bem que com pausas pelo meio) na noite do meu aniversário, em pleno trinca espinhas.

terça-feira, dezembro 15, 2009

em jeito de narcisismo:


The Residents - Birthday Boy

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Os homens decentes acabam sempre sozinhos, enquanto as mulheres se queixam que o género masculino inteiro não oferece flores, não sabe ser romântico, esquece as datas importantes, não faz surpresas, não baixa os tampos das sanitas.

Pois.

Eu nunca me esqueço de nenhuma data. Baixo sempre o tampo da sanita. Ofereço flores e livros e discos e filmes. Gosto de fazer surpresas agradáveis e românticas. Gosto de sair em jantares íntimos a dois. Gosto de morrer por amor.
E, no entanto, acabo sempre sozinho. Sou sempre “muito especial”, quase deficiente, de tão “especial”, as senhoras nunca se me dão demasiado porque “me respeitam muito” e “não me querem magoar”.

Obrigado, queridas donzelas. Mas, ao menos, não se queixem tanto de não haver homens decentes. Só não se queixem, pode ser? E assumam logo, de uma vez por todas, que querem é tipos bonitos, por mais estúpidos que sejam. Que gostam é de futebolistas, de armários que fazem culturismo, de meninos louros que praticam surf, ou, pelo menos, de gajos com bandas. De gajos com pilas monumentais.

De pilas com homens atrás. Pilas flutuantes. Com atrelado. Que fodam como animais com cio.

Pouco mais que macacos.

domingo, dezembro 13, 2009

mamã:

deixa-me fazer-te saber que estou mal, mãe, deixa-me pedir-te que me abraces, para não tremer à noite... deixa-me falar-te desta pessoa, a sério, deixa. que ela dói-me e vai-me destruindo aos poucos, mas amo-a, mãe, amo-a, parece que é só o que sei fazer, estar apaixonado é o meu ofício, o meu trabalho, é isso que faço bem, isso e Nada, duas coisas em que sou excepcional, já viste? já viste que te podias orgulhar de mim se as regras do mundo fossem inventadas de outra forma, de uma forma que nos explicasse melhor, a mim e a ti e às pessoas...

mãe, eu estou apaixonado e dói-me.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

terça-feira, dezembro 08, 2009

elegia da depressão

Hoje estou a ler coisas dos outros e todos me parecem tão tristes, tão complicados, tão magoados... tenho passado mais tempo acordado e isso faz-me reaprender a pensar nas coisas, acho que já me tinha esquecido de pensar nas coisas, tinha-me criado como um ser exclusivamente sensitivo, nos últimos anos, e já nem me lembrava de que consigo ser tão... racionalizador de tudo, a pontos mesquinhos, obsessivos, absurdos. Toda a gente está tão triste, a desejar temporais, impotências de viver, amores que passaram... todos os bloggers que leio, hoje, é assim que se me apresentam.

E eu, depois, no fim disso, que também estou triste porque sou demasiado complicado, demasiado estúpido, demasiado egoísta e obcecado com as coisas, quero "resolver" nem sei bem o quê, porque a verdade é que não há nada para resolver, é deixar as coisas andar, sem rótulos, sem classificações, é ir conversando naturalmente e tirando o maior partido possível das poucas vezes em que vou estando com a pessoa com quem quero estar.

Mas o que é que faço com as saudades?

mais palermices avulsas sobre o mesmo tema:

Sou, provavelmente, das pessoas mais pindéricas, ridículas e lamechas, neste momento da minha vida. Fico assim, a pensar numa pessoa só, com direito a sonhos quase diários, e tudo, e estar em casa sem saber o que fazer, coisa que, de resto, nunca senti antes. Estar em casa na net ou a ler ou a ver filmes nunca foi um problema para mim, antes, mas, nesta altura, não me apetece, não me serve, não me interessa... nem a ouvir música seguida, que nem um obcecado. Nem é para estar com a pessoa, que sei que ela não é muito dada a isso, mas queria estar com amigos, quanto mais não fosse, a falar dela, no mínimo. Claro que, enfim, obviamente, se ela pudesse e quisesse, era com ela que queria estar, em vez de estar para aqui a visitar os mesmos dois ou três sites de dois em dois minutos, a ver quem tenho, no messenger, que me ature a falar disto, destas coisas, deste amor que não sei muito bem como apareceu, mas que me vai fazendo bem.

Já nem tenho funcionado muito bem nas minhas rotinas habituais... de ir às Caldas tomar café à tarde e ficar a encantar-me com as empregadas de balcão e as raparigas bonitas. A última coisa que notei, quando fui ao CCC, foi que a pessoa que me maravilhava mais, lá dentro, é demasiado magra e cheirava a suor. Ou de estar no bar do costume e essa mulher entrar e eu largar imediatamente os meus amigos, sem me aperceber muito bem como nem porquê, só porque a pessoa tem uma coisa qualquer que me atrai e eu não entendo, e vou atrás dela para o balcão e, até, para alguma mesa, negligenciando as pessoas com quem estou (sendo que, uma delas, não a via há quatro ou cinco anos...), sem ser por mal, é certo, e eles até me alegam um "Pedro, eu percebo, não tem mal nenhum, eu quero é ver-te feliz", mas negligencio.

domingo, dezembro 06, 2009

questões mais ou menos pertinentes acerca do amor

Sou uma pessoa que se apaixona de vez em quando e que se dedica muito às pessoas. E grande parte do tempo ando feliz e bem, mas desta vez passam-se coisas mais complicadas (conheço o objecto da minha afeição há relativamente pouco tempo, e isto que sinto dura mais ou menos ao tempo em que que conheci a dita cuja), e eu sou demasiado... nem sei bem... needy. Amo esta pessoa, amo mesmo, não tenho outra palavra que queira usar, e quero dar-me, e isso, todas essas coisas, esses lugares-comuns do amor e da paixão. Nem é nada forçado, está-me a ir saindo assim... e custa-me um pouco que a menina bonita a quem dedico isto tudo não retribua da forma que eu acho que precisava.

Mas, por enquanto, estou bem. Acho que isto vai valendo a pena enquanto for estando mais bem, que mal... sim?

sábado, dezembro 05, 2009

namorada holandesa, pode ser?

Mónica, vê lá se me facultas uma, que, isto, as portuguesas, confesso que já ando farto...

sexta-feira, dezembro 04, 2009

em referência a esse portento de filme, que é "Arthur":

quero ser a Liza Minnelli do teu Dudley Moore.

terça-feira, dezembro 01, 2009

T-T

(tenho medo que o que certas pessoas vaticinam se torne realidade. tenho pavor de isto me doer outra vez no fim.)