Há filmes que, quando saem, sejam bons, ou não, geram sempre demasiado hype em seu torno, e isso faz, à partida, com que eu me desinteresse bastante por eles. Na verdade, isto acontece-me com tudo, ou quase: a menos que tenha mesmo uma paixão tremenda por alguma coisa, se muita gente gosta, a minha tentação é recusar e maltratar uma coisa. Obviamente que sei que este meu espírito nada empírico, que recusa uma coisa à partida, só porque sim, é obsoleto e, bem, basicamente, estúpido, mas reconheço que me sinto bem assim, e não me parece que tenha perdido nada, ao longo da minha vida, por ter assim esta atitude extrema em relação às coisas. Ora, sucede que esse deus do cinema "de autor" (bendito termo para designar um cinema que é visto maioritariamente por uma certa e alegada elite cultural, ou minoria social, ou, simplesmente, cinema que supostamente tem qualidade e é dirigido a um público supostamente menos amigo do comercial e do convencional), que é Quentin Tarantino, sempre que lança um filme, é um nunca mais parar de críticas positivas, que, enfim, lá terminam, passados uns meses, quando toda a gente se apercebe de que, afinal, os filmes não eram assim tão bons como a crítica fazia parecer. Mas também ninguém desmente, porque, se é um filme do Tarantino, por menos excelente que seja, é sempre bom. Frise-se sempre. E também se dá que recentemente saiu o seu filme Inglorious Basterds, uma ficção passada por alturas da Segunda Guerra Mundial.
Para ser franco, os únicos filmes de que gosto mesmo, feitos por esse cavalheiro, são o Reservoir Dogs e o Pulp Fiction. E sei bem do risco que corro ao afirmar isto, "ai, tem a mania que é pseudo-alternativo, só gosta dos filmes originais dele", mas não me interessa mesmo nada que pensem isso. Só gosto desses filmes dele, pelo menos a 100%. Não gosto da saga Kill Bill, não acho piadinha nenhuma à Uma Thurman, e francamente, quando a única coisa que fazemos é imitar géneros e colá-los uns sobre os outros, na secreta esperança de criar algo novo, como faz o Tarantino, a coisa acaba por sair, vá, com uns momentos de inspiração mas, em última análise, um fracasso. Muitas me pessoas me criticam por gostar imenso dos western spaghetti do Sergio Leone, mas o seu caro Tarantino também alega que Leone realizou aquele que é, segundo ele, o filme mais bem realizado de sempre (O Bom, O Mau e O Vilão). A verdade é que, sim, vêem-se influências de Leone nos filmes do Tarantino, mas acho que vai ser sempre uma péssima imitação. Posso estar enganado, mas sinto sempre que o Leone era "puro" nos seus desígnios; o que pretendia era criar a suprema forma de arte visual no cinema, coisa que é visível na sua trilogia dos dólares, que culmina, precisamente, com O Bom, O Mau e O Vilão, trilogia onde aborda quase sempre os mesmos temas, cria imagens muito semelhantes e vai praticando uma "evolução" de cinema. Mas o Tarantino, parece-me a mim, quer fazer filmes porque, na verdade, se sente bem no seu papel de realizador "de culto", e gosta da atenção que lhe é dada nesses meios underground (ficou, por exemplo, irritado de o Inglorious Basterds não ter ganho o prémio de melhor filme em Cannes, porque achava que era merecido).
Não vou ver o filme porque estou cansado do movimento pró-Tarantino, e porque estou farto de filmes de guerra (mesmo que ele alegue que o filme não é um filme de guerra, é o seu western spaghetti com iconografia da Segunda Grande Guerra - inserir riso sarcástico da minha parte, em resposta a esta afirmação do querido Quentin), mesmo que sejam filmes de guerra ficcionais e não baseados em factos históricos (que estes filmes mais "históricos" conseguem ser, proporcionalmente, ainda mais chatos), porque acredito que o filme, embora diferente, me vá deixar a sentir o mesmo que os Kill Bill: um exercício medíocre de cinema, com flagrantes plágios visuais e "espirituais" de Leone e outros, que, ocasionalmente, tem o seu momento de inspiração (também, copiando e colando de tanta gente boa, alguma coisa a roçar a genialidade haveria de sair, num minuto ou outro). Ah, e reitero: digo isto sem ter visto sequer um trailer do filme, é a minha opinião visceral sobre o homem e o seu cinema, só isso, aliada a informação que fui lendo por este maravilhoso mundo que é a internet. E, já agora, aproveito para dizer que também acho que fazem falta mais pessoas com opiniões tendenciosas "só porque sim", porque isto anda tudo demasiado politicamente correcto.